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  • Writer's pictureRui Marques

A Tirania do Mérito

É quase consensual um discurso sobre a bondade da meritocracia. Todos os anos chovem os diferentes tipos de rankings, como por exemplo o das Escolas, que as ordenam a partir das notas dos seus alunos. Mas que queremos dizer com "mérito”? E será mesmo “mérito”?


Chamou-me a atenção o último livro de Michael Sandel, “A tirania do mérito”. E nada como pegar nele para perceber o quão importante é a sua leitura. O autor parte do senso comum instalado na sociedade norte-americana – que podemos transladar para a nossa - em que o sucesso de cada um/a depende do seu esforço e do seu trabalho, pelo que “quem quer, alcança os seus objetivos”. Mas será assim mesmo? Será que aqueles que não têm sucesso se deve exclusivamente ao serem uns “falhados”, “preguiçosos” ou “pouco inteligentes”?

Sandel faz uma análise muito certeira de como esse discurso provocou uma enorme revolta silenciosa nos que, nos EUA, são pobres e não tiveram sucesso e de como deteriorou a perceção do bem comum. O ressentimento contra uma sociedade que os “culpa” pelo fracasso vem ao de cima. Com repercussões políticas significativas – como o apoio a discursos populistas e radicalizados do universo Trump – surge um alerta para que esse discurso e atitude social não só são injustos, como provocam disrupções sociais graves e está alinhado com o aumento das desigualdades.




Para o nosso país, surge obviamente também um alerta. Seguramente que não é indiferente a vontade e o trabalho para que alguém alcance os seus objetivos. Todos podemos reconhecer isso facilmente. Porém, talvez possamos dizer que o mérito é sempre relativo. Tem obrigatoriamente de ser considerado o ponto de partida, as condicionantes de contexto e as políticas públicas que promovem a igualdade de oportunidades. Dizia Adriano Moreira, Homem grande que recentemente nos deixou, recordado pelo seu filho: “Lembro-me bem da primeira vez em que o meu pai me falou sobre a diferença entre a igualdade à partida e igualdade à chegada…”. Por tudo isto, ao longo dos anos fui-me habituando a reconhecer o mérito extraordinário daqueles/as que perante condições hostis e partindo com enorme desvantagem progridem significativamente. Sim, porque mérito é ser melhor hoje do que fui ontem. Ir mais além do meu ponto de partida. Não se deixar destruir por um contexto onde as oportunidades não existem. Por outro lado, estando do lado dos relativamente privilegiados, vou-me consciencializando cada vez mais da humildade necessária para olhar para os nossos sucessos, que dependem não só do nosso trabalho, mas (tantas vezes mais) da família em que nascemos, das oportunidades que nos foram dadas e do que nos foi proporcionado.



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