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  • Writer's pictureRui Marques

Ainda o Quénia: a memória esbatida de Portugal

Um dos temas abordados pelo projeto Go Blue, no Quénia, relaciona-se com o património cultural e o turismo. Por isso, na visita que fiz, não poderia deixar de conhecer aquele que é provavelmente o expoente máximo desses recursos: o Forte de Jesus, em Mombasa, construído pelos portugueses, em 1593, liderados por Mateus Mendes de Vasconcelos.


Durante cem anos aí permanecemos, numa posição estratégica na rota da Índia, até termos sido derrotados pelos omanitas. Visitar esse espaço monumental constituiu, inevitavelmente, uma experiência especial. Encontrar nas paredes as memórias esbatidas da presença portuguesa traz-nos simultaneamente uma afinidade e um desconforto.


Por um lado, creio que é impossível não sentir algum espanto perante a ousadia destes nossos antepassados, vindos de tão longe e com todas as dificuldades de então. Aqui chegaram e, num contexto particularmente difícil, foram capazes de construir este imponente forte que permanece séculos e séculos depois. Por outro lado, é também inevitável o sentimento de que nunca aqui fomos queridos (Camões associa nos Lusíadas uma má experiência de Vasco da Gama em Mombasa, ao contrário do que aconteceria em Melinde) e tudo conspirou para a nossa expulsão.


A gestão deste legado, quer patrimonial, quer simbólico, projeta-nos hoje para uma realidade completamente diferente, deixando qualquer saudosismo bacoco para trás e abrindo-nos para outros registos.


Procura-se agora um encontro de povos e culturas, baseado no respeito mútuo e na capacidade de construirmos juntos caminhos de desenvolvimento sustentável, para o qual o turismo e o património cultural muito pode contribuir. Por isso, a oportunidade de fazer parte dos que protagonizam estes novos tempos constitui algo muito especial. Será outra forma de amanhecer diferente.



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