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  • Writer's pictureRui Marques

Abril, laços mil

Abril, laços mil! A acabar mais um mês, nesta contagem imparável do tempo, que se escoa como areia fina numa ampulheta, regressamos ao nosso “cuidar dos laços” que nos unem como comunidade de sentido e de futuro. Para este abril, que é de liberdade e de sobressaltos, trago-vos um roteiro de propostas múltiplas que talvez vos possam inspirar – como a mim – para um olhar de esperança.


Voltar sempre ao essencial

Em tempos conturbados precisamos de referenciais para navegar. Os mapas, os faróis, os diferentes GPS da nossa vida precisam de estar presentes para não nos perdermos nas tempestades ou nos nevoeiros. Um dos melhores que conheço é a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não a devemos olhar como uma peça histórica, do século passado, mas dar-lhe vida e expressão quotidiana. Recordo-a a terminar este abril, enquanto a guerra continua a grassar em terras ucranianas. Escolho como forma de a recordar, um ultimo trabalho de Max Richter, “Voices”, de 2020, que inclui “All human beings” que abre com a voz de Eleanor Roosevelt lendo o preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos nas Nações Unidas em 1948, depois segue a entoação da actriz Kiki Layne:

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais, em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir uns para com os outros num espírito de fraternidade. Todos têm direito a todos os direitos e liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer tipo, como raça, cor, sexo, língua, religião, opiniões políticas ou outras, origem nacional ou social, propriedade, nascimento ou outro estatuto... Todos têm direito à vida, à liberdade e à segurança da sua pessoa".


Uma só família humana

Na Academia de Líderes Ubuntu também temos o nosso mapa de orientação. O “Manifesto Ubuntu – Uma só família humana” nasceu da convicção da importância de encontrarmos um referencial comum para toda a comunidade Ubuntu que espelhasse os valores fundamentais que nos movem. Cerca de 10.000 membros desta comunidade já a subscreveram. Se quiser, pode juntar-se a nós e difundir junto dos seus contactos para nos mobilizarmos cada vez mais para a consciência de que somos, como dizia Mandela, “braços da mesma árvore”.




Atenção às linhas que nos dividem!

A propósito deste tema da nossa humanidade comum, uma das ferramentas mais interessantes para perceber quão aleatórias podem ser as linhas que se traçam para nos separar e criar “identidades” é o Atlas of Prejudice. O seu autor, Yanko Tsvetkov, tem vindo, desde 2009, a desenvolver o que chama de “laboratório oficial do estereótipo” e a propor mapas cujas fronteiras estão traçadas em função de estereótipos. É impressionante como há tantas maneiras de nos dividirem e o que pode ser uma graça, num dado momento pode, noutra ocasião, ser origem de discursos de ódio e de “justificação” de atrocidades. Pode ver alguns desses mapas na galeria de arte e design do The Guardian.



Desnazificar irmãos? – A visão de Putin e a estratégia de desumanização

Um dos fenómenos clássicos dos conflitos é a desumanização dos inimigos. Para se justificar e permitir todas as atrocidades possíveis é necessário que se desumanize o “outro”, se torne menos humano aquele que queremos atacar. Esta realidade está tragicamente presente ao longo da história da humanidade. Foi assim para justificar a escravatura, os diferentes genocídios ou o holocausto. Com a guerra da Ucrânia, repete-se o fenómeno. Putin, depois de um discurso inicial que justificava a invasão por serem o “mesmo povo”, rapidamente somou ao seu discurso, como razão fundamental da sua “operação militar”, a desnazificação da Ucrânia. Como se os ucranianos, na sua generalidade, fossem expressão desse horror chamado nazismo. A este propósito, creio que é útil ouvir um dos maiores especialistas neste tema das estratégias de desumanização, David Livingstone Smith, que aqui nos lembra a resistência que devemos evidenciar quando alguém nos quer fazer crer que um outro grupo de pessoas é “menos humano” para depois justificar todos os maltratos.



Ramos Horta e Academia Ubuntu e Timor-Leste

No último ano, a Academia de Líderes Ubuntu organizou o seu evento mais ambicioso desde sempre: o Ubuntu United Nations, que reuniu ao longo de cinco seminários, participantes de 190 países do mundo. Como presidente desta iniciativa tivemos a honra de contar com José Ramos Horta, laureado com o prémio Nobel da Paz de 1996. A sua luta pela autodeterminação de Timor-Leste, entre 1975 e 1999, representou um expoente do que pode ser o compromisso Ubuntu para a construção de um mundo mais justo. Nunca desistindo quando era difícil continuar, foi capaz de dar o seu melhor enquanto responsável da frente diplomática, na mobilização de apoios a esta causa. Conheci-o então e desenvolvemos uma amizade que perdura até hoje. Depois da independência, serviu o seu povo de várias formas e há poucos dias foi de novo mobilizado para a mais alta magistratura, a Presidência da República, ao vencer a 2ª volta das eleições em Timor Leste. Celebrando a sua missão e a sua visão, recordamos a intervenção que fez para o lançamento da UUN, há um ano, durante o Dia Internacional Viver Juntos em Paz.



A maravilha do regresso ao presencial – a 11ª edição da ALU

Depois de dois anos em registo quase exclusivo em formato digital temos vindo progressivamente a regressar ao presencial. Em abril, realizámos a 11ª edição da Academia de Líderes Ubuntu, com cerca de 50 participantes, entre os 18 e os 35 anos. Foi mais uma experiência extraordinária que nos dá a alegria de perceber como podemos servir, enquanto IPAV, para que cada um/a que connosco se cruza possa fazer a sua busca pessoal de sentido e propósito de vida. Recordo alguns testemunhos de participantes e proponho-vos que ouçam o encerramento desta ALU com as palavras do Prof. John Volmink:



“Há semanas que têm o poder de condensar a alegria, inspiração e aprendizagem de vários meses ou até anos. E foi isto que a ALU me deu… Senti muita coisa de forma muito intensa. Levo comigo aprendizagens muito valiosas, histórias e partilhas que me marcaram muito, gargalhadas, muitoooos abraços e muita vontade de fazer acontecer. A ALU transmitiu-me valores e ensinamentos essenciais. Sinto-me extremamente grata por ter tido oportunidade de viver tudo isto <3” (ARG) “Com o coração a transbordar de amor, com introspeção imensa, abertura e confiança. Que bom que foi...” (AL) “Eu cheguei cá sozinha, sem conhecer ninguém e completamente fora da minha zona de conforto. Vivi esta academia como algo bom e único, onde acredito ter conhecido pessoas especiais e me conheci a mim mesma! Por fim senti que esta academia durou muito mais do que 5 dias, durou o meu passado, é o meu presente e ficará comigo para o futuro! Estou agradecida” (DM)


Portalegre, uma cidade Ubuntu – Encontro Regional de Escolas Ubuntu

A dinâmicas das Escolas Ubuntu vai pontuando o país, um pouco por todo o lado. Uma das dinâmicas que mais apreciamos são os encontros felizes desta comunidade. Em Portalegre, aconteceu um desses momentos mágicos. Com a organização entusiástica e muito competente do Agrupamento de Escolas José Régio, com a liderança da sua Diretora, Ana Rute Sanguinho, a par com o Instituto Politécnico de Portalegre, liderados pelo seu presidente, Luís Loures, e pelo vice-presidente, Fernando Rebola, foi possível concretizar um programa para cerca de 200 jovens e educadores das Escolas Ubuntu da região. A alegria transbordou em todos os momentos e a certeza que se está a mudar alguma coisa, dentro de nós e à nossa volta, foi evidente.



Tempo de contemplação

Os que me conhecem sabem que uma das minhas obras audiovisuais preferidas é a série Human, de Yann Arthus-Bertrand. Trata-se de um monumental documentário que nos traz a humanidade, na sua diversidade e na sua beleza. Passando pelos grandes temas - Amor, Trabalho, Morte, Felicidade,..- mostra-nos rostos humanos e, nas suas palavras, também as suas almas. Procura responder a uma questão de fundo: O que nos torna humanos? Diz-nos, a propósito, o seu autor:

“O facto de poder testemunhar tantas histórias de vida diferentes da minha fez-me pensar: teremos todos o mesmo desejo de amor, liberdade e sucesso? Num mundo dividido entre a tradição e a modernidade, serão as nossas necessidades básicas as mesmas, em todo o lado? No fundo, o que significa, hoje, ser-se humano? Qual é o significado da vida? Será que partilhamos mais valores do que aqueles que imaginamos? E, se sim, porque continua a ser tão difícil compreendermo-nos uns aos outros?”

Também a música deste documentário é de excelência. Armand Amar compôs uma prodigiosa banda sonora para acompanhar as vozes e as paisagens. Para além da visualização do documentário completa, sugiro-vos um momento de contemplação em que possam deliciar-se num silêncio interior só com a música e as imagens de Human.




“A praça e a torre”, um livro de Niall Ferguson a ter em atenção

Tenho estado a ler com grande interesse esta obra, que me tem ajudado a perceber melhor dinâmicas da história humana. Deixei-me atrair desde logo pela sinopse que nos provoca dizendo:

"E se tudo o que julgávamos saber sobre a história estivesse errado? Niall Ferguson propõe-nos uma nova forma de olhar o mundo: reformulando cada um dos períodos transformadores da história mundial, incluindo aquele em que vivemos, evidencia a existência de um confronto intemporal entre as hierarquias do poder e as redes sociais. "Grande parte da história é hierárquica: trata de papas, imperadores, presidentes, primeiros-ministros e generais. Fala-nos de Estados, exércitos e corporações. É sobre as ordens vindas de cima. Mesmo a história «da base» costuma centrar-se em sindicatos e partidos de trabalhadores. Mas e se isso acontecer simplesmente porque são as hierarquias que criam os arquivos históricos? E se estiverem a escapar-nos redes sociais igualmente poderosas mas menos visíveis, porque menos documentadas, mas que são as verdadeiras fontes de poder e os motores da mudança?"

A leitura não tem desiludido. Entender que o nosso mundo é fruto do que acontece nas diferentes dinâmicas de redes ajuda a agir melhor sobre a nossa realidade. Vale a pena ler.




A riqueza da diversidade nos antípodas do simplismo

Acolher e aceitar a diversidade de olhares sobre a mesma realidade, que nos projeta para campos diferentes é algo que sempre devemos buscar. Esta imagem inspiradora mostra-nos que atrás de um copo meio-cheio/meio-vazio, versão tantas vezes usada para sinalizar olhares opostos, há muito mais do que essa dicotomia. Provavelmente é sempre assim a vida. Apreender tudo isso é um caminho para a verdadeira aprendizagem que precisamos de fazer.




Uma homenagem a Steve Biko

Uma das figuras da luta contra o apartheid foi Steve Biko. Independentemente do maior ou menos acordo que as suas teses nos despertem, foi indiscutivelmente uma voz corajosa, que morreu vitima dos maus-tratos na cadeia. Dele ouvi contar que teria dito: “Luto não só pela libertação do meu povo negro, mas também pela libertação do carcereiro, porque também ele é vítima deste sistema iníquo”. Esta interpretação da música que Peter Gabriel dedicou a Steve Biko, através do projeto “Playing for change”, inspira-nos.




Em Maio ….

- Com o projeto GovInt Alentejo, em parceria com a CCDR Alentejo e as Comunidades Intermunicipais deste território iremos realizar duas conferências sobre complexidade e governação integrada. A primeira terá lugar no dia 10 de maio, no Instituto Politécnico de Beja, com o tema “A gestão da água: desafios de governação integrada perante um problema complexo”. A segunda será em Santarém, no dia 30 de maio e será dedicado ao tema “Insucesso e abandono escolar”. - Marcaremos uma vez mais a celebração do dia 16 de maio, Dia Mundial Viver Juntos em Paz, associando-nos à ONU neste renovado apelo à paz no mundo e, no contexto atual, em especial para a Ucrânia. Fiquem atentos aos próximos dias em que convocaremos para isso. - Nos dias 23 e 24 de maio, em Gaia, lançaremos o novo projeto do IPAV. Situa-se no campo da nossa máxima “Relaciono-me, logo existo” e envolve um particular foco nas cidades. Vai dar que falar.


Voltaremos no dia 25 de maio, para voltar a cuidar dos laços. Até lá, cuidem da esperança e do ânimo que nos faz avançar.

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