top of page
  • Writer's pictureRui Marques

Paciência, Entrelaçamento, Confiança e Esperança

Regresso ao vosso contato, neste caminhar juntos, com encontros em cada curva do tempo. Sempre com a alegria de quem se “revê”, sem longe, nem distância.


Paciência. Diferir remuneração. Os tempos certos.

Numa visita ao Agrupamento de Escolas Professor Agostinho da Silva, em Casal de Cambra, concelho de Sintra, - uma Escola Ubuntu extraordinária! - para um encontro com a comunidade escolar sobre a importância da educação socioemocional, em contexto da promoção dos direitos e proteção de crianças e jovens, surgiu esta questão. Com efeito, um dos enormes desafios que enfrentamos é a (in)capacidade de lidarmos com outros tempos que não o instantâneo. Tudo nos empurra para uma cultura do “click”, do “”, de um estalar de dedos que magicamente tudo consegue. O que não é imediato exaspera-nos. Se não der logo, já não vale a pena. Precisamos de parar para pensar – e reagir – sobre esta forma de vida.

Desde logo, precisamos de valorizar e cultivar a capacidade de diferir a remuneração do esforço, o outro nome do investimento. Como conseguiremos cultivar o apreço por investir agora para ter sucesso mais tarde? Como recuperaremos a sabedoria dos ritmos que permitem semear e, antes de colher, saber que é preciso regar, limpar e sobretudo, esperar?

Na era dos 1000 à hora (que vos falava na última viagem conjunta) precisamos também do movimento inverso que nos traga a cultura da paciência. De saber dar tempo. De procurar ter tempo.

Um dos contextos metodológicos que valoriza esta necessidade de aprender a esperar é o modelo Montessori. Deixo-vos um testemunho que sinaliza este processo. Podem também encontrar aqui recursos para ensinar (e aprender) a esperar.



Mas ainda mais conhecida é a Experiência do Marshmellow. Esta foi criada por Walter Mischel nos anos 70 e consistia no estudo do adiamento da gratificação em crianças. Para estudar esta competência, Mischel colocava à frente das crianças um Marshmellow, a recompensa, dando a instrução de que se aguentassem 15 minutos sem o comer, receberiam outro. Contudo, se comessem a recompensa nesses quinze minutos não receberiam nada. Depois desta instrução, as crianças eram deixadas à frente do marshmallow sozinhas.

Anos mais tarde, seguiram-se várias medidas de follow up da experiência. Este estudo mostrou que as crianças que tinham no momento da experiência, a capacidade de adiamento da gratificação, seriam os que, mais tarde e entre outras evidências, tinham melhores resultados na faculdade e mais sucesso na vida.



Do “Cuidar dos laços” ao Entrelaçamento quântico

Ouvi recentemente, numa conferência, uma expressão a que nunca tinha dado a devida atenção: entanglement. Desde aí tenho vindo a investigar um pouco mais a sua aplicação metafórica ao nosso contexto do “cuidar dos laços”.

Este conceito vem da mecânica quântica e, de uma forma simplificada, fala-nos de “dois ou mais objetos que estão de tal forma ligados, que um não pode ser completamente descrito sem que a sua contraparte seja mencionada” (ver explicação mais completa aqui ou aqui). Este campo do conhecimento leva-nos a enormes desafios científicos e tecnológicos, mas mostra-nos também uma metáfora para a nossa realidade interpessoal e social: estamos todos profundamente ligados. Entrelaçados, diríamos neste quadro. Esta interrelação e interdependência têm inúmeras consequências, a mais importante das quais é que para uma melhor sociedade são necessárias melhores relações. Parece óbvio, mas há muito caminho para andar. Daqui decorre, por exemplo, a compreensão de que a nossa vida em sociedade, enquanto sistema não é (só) a soma do comportamento das partes, mas (sobretudo) o produto das suas interações (R. Ackoff).



Ouwais e uma história de esperança

Há alguns dias deparei-me com a nova campanha publicitária da Universidade Católica, que evidenciava na sua comunicação a relevância que quer dar ao acolhimento de refugiados. O Ouwais Sadek, é nosso companheiro no IPAV. Tem feito um trajeto extraordinário enquanto estudante e enquanto membro da Academia de Líderes Ubuntu. É uma história muito bonita de encontro, acolhimento, autossuperação e de exemplo.



A este propósito pedi-lhe que partilhasse o seu testemunho:

"Poderia imaginar que quando de repente se encontra num túnel escuro, sem saber qual será o seu fim e o que o confrontará à medida que caminha através dele, é forçado a caminhar contra a sua vontade, não pode voltar atrás ou mesmo parar para olhar à sua volta ou dar a si próprio uma oportunidade de pensar?... essa era a minha situação quando estava no meu país, que foi devastado por guerras em todas as direções.

Felizmente, a Universidade Católica salvou-me dessa escuridão, concedendo-me uma bolsa de estudo num campo que tanto queria estudar, que é o Comunicação Social e Cultural. Hoje, com a aproximação do anúncio dos resultados do último semestre do último ano, estou prestes a terminar e estou prestes a pôr um pé no início da pirâmide que sempre quis escalar em paz.

Uma viagem muito bonita que fiz nestes três anos, pode ser fácil e simples para os meus colegas, mas para mim nunca foi assim. Passei por dificuldades linguísticas e frustrações no início, porque comecei a aprender português no início da universidade. O facto de os professores universitários me apoiarem, permitindo-me escrever em inglês foi inestimável.


Apesar destas dificuldades consegui chegar ao fim do curso onde passei o desafio que me impus a mim próprio.

O anúncio da Universidade Católica de conceder novas bolsas de estudo para vários refugiados em Portugal reflete a generosidade da cultura portuguesa, que sempre recebeu muitos requerentes de asilo e de segurança de países que sofrem crises.

Estas bolsas de estudo servem como um bilhete gratuito para uma viagem que termina com otimismo e promove a construção de pontes entre as nacionalidades, destes estudantes e a comunidade local. Estou muito orgulhoso por estar no cartaz que anunciou esta iniciativa. Fiquei com uma impressão muito agradável, que é a de que o pessoal da Universidade Católica está feliz por me ter entre eles."

(Ouwais Sadek)

Já agora, o Ouwais é muçulmano praticante, num testemunho de encontro de culturas e de religiões, que reflete o que o mundo deveria ser, em todas as latitudes.

Vilar Formoso, Fronteira de Paz

Já era um objetivo de há algum tempo. Finalmente proporcionou-se a nossa visita a “Vilar Formoso – Fronteira de Paz. Memorial aos refugiados e ao cônsul Aristides de Sousa Mendes”. Trata-se de um museu que é essencial visitar. Mostra-nos o papel de Portugal no acolhimento a refugiados durante a IIª Guerra Mundial, no contexto do principal ponto de entrada, Vilar Formoso, a partir da história dos que o experimentaram.

Com uma narrativa muito bem construída (está de parabéns a Margarida Magalhães Ramalho pelo trabalho feito) e com uma abordagem arquitetónica particularmente bem conseguida, com a liderança de Luísa Pacheco Marques, a visita constitui uma experiência imersiva muito tocante, de como “gente como nós” se viu numa circunstância terrível, num dos momentos negros da história da Europa. Promovendo uma justa homenagem a Aristides Sousa Mendes, não deixa de destacar os muitos gestos que, por todo o país, se foram desenvolvendo para acolher estes refugiados.

Retive, para partilhar convosco, um dos testemunhos mais marcantes sobre a atitude de Aristides Sousa Mendes exposto num dos painéis:

“Chegámos a Bordéus, esfomeados, não tínhamos casa, não tínhamos nada, como milhares de outros judeus que tinham fugido da Polónia, Alemanha, Bélgica e que se tinham refugiado em França. Sousa Mendes estava disposto a ajudar. Por coincidência, conheceu o meu pai na rua. Bem, não há coincidências. Acreditamos que Deus quis juntar, naquele momento, aquelas duas pessoas ali.

O meu pai contou-lhe que era refugiado, que tinha mulher e cinco filhos e que não tinha onde ficar. Imaginem. Um homem que ele nunca tinha visto, ele, um homem de posição, o meu pai um rabino judeu e ele um católico disposto a levar um judeu, durante a guerra, para a sua própria casa!”.

(Rabino Jacob Kruger)

Para quem não tiver ocasião de fazer a visita (ou para quem a quiser fazer com maior enquadramento) sugiro que vejam o programa Visita Guiada, de Paula Moura Pinheiro, sobre este Memorial que está disponível aqui.



Frases que dizem (quase) tudo.

Recentemente na viagem a Timor, ouvi de uma amiga, a máxima que era usada no contexto institucional da formação de diplomatas em que trabalhou. O Continente, através sua agência de publicidade Fuel, também pegou no conceito, em tempo de pandemia e inspirou-se para uma campanha importante que continua atual, para os desafios de cada tempo: “Para o bem de todos, o melhor de cada um”.

No foco que colocamos na liderança servidora, esta máxima é particularmente inspiradora. É uma outra expressão desta cultura de cuidado mútuo, de percebermos que estamos juntos neste destino comum e que só o melhor de cada um viabiliza o bem de todos. Poderia bem ser um verdadeiro desígnio nacional, para cada família, cada comunidade, cada escola, cada empresa, cada instituição…



Em quem confiam os portugueses?

Nas minhas pesquisas sobre o tema da Confiança, que nos ocupa e preocupa, encontrei recentemente o resultado de um inquérito da DECO-PROTESTE que nos traz os níveis de confiança que instituições e empresas despertam nos inquiridos. Não me espantei – mas muita gente mais desatenta terá sido surpreendida - que no topo da tabela de confiança dos portugueses está o sistema educativo público, mesmo acima do popularíssimo Presidente da República. Isso desperta uma reflexão que se pode iniciar pelo reconhecimento que é feito do trabalho de toda a comunidade educativa. Obviamente é um reconhecimento justo e merecido que, porém, não tem sido tão evidente como deveria ser. Precisamos, por outro lado, fazer um trabalho de evidenciar estes resultados junto das Escolas para que percebam como são tidas por confiáveis pela comunidade e se sintam reforçadas por isso. No extremo oposto dos níveis de confiança encontramos o sistema judiciário. Isso é particularmente preocupante, pois um Estado de Direito tem dificuldade em sobreviver com níveis tão baixos de confiança dos cidadãos. Há muito a fazer para resgatar confiança na Justiça.



Ubuntu Talks - Carlos Liz

Ainda no rasto dos tempos de covid, que teimam em não terminar, recupero um dos momentos mais estimulantes das Ubuntu Talks, dedicadas ao “Dia seguinte”. Uma reflexão partilhada sobre que consequências o impacto do Covid gerou, teve na intervenção de Carlos Liz, um dos momentos altos e de grande valor acrescentado, em torno do tema “Evidências científicas da Ética do cuidado”. Esta reflexão é feita a partir do livro "Compassionomics", de Stefhen Trzeciak e Anthony Mazzarelli, uma revisão de estudos objetivos sobre o impacto da compaixão na terapêutica. Vale muito a pena (re)ouvir as suas reflexões, que continuam prementes e atuais.



Ubuntu Fest - Francisco Vera, uma voz a ter em conta

Aproxima-se a passos largos o grande momento do Ubuntu Fest, que decorrerá de 15 a 17 de julho, na magnífica cidade de Tomar. Nascido do impulso de uma extraordinária diretora de Escola, a Prof. Maria Celeste Sousa, que dirige o AE Nuno de Santa Maria, nesta localidade, será um grande momento de reencontro da comunidade Ubuntu. Contaremos com cerca de 400 participantes vindos de todo o país, que viverão uma experiência única. Sem querer antecipar muito o programa, para não lhe retirar a beleza da surpresa, entre vários convidados internacionais, estará connosco um muito especial: Francisco Vera.

Esta criança colombiana de 12 anos inspira-nos já há anos, e foi recentemente convidado especial da COP 26 em Glasgow, pois um dos focos essenciais da sua ação tem sido a emergência climática. Recentemente, Francisco teve de abandonar o seu país, dadas as ameaças sofridas face às posições que tem assumido. No Ubuntu Fest, em nome da ética do cuidado do nosso planeta, teremos connosco o Francisco para nos inspirar.




Vitamina G – o necessário para um final de ano letivo com sentido

Depois de um ano intenso, com as naturais marcas de cansaço a aparecer, é bom que não nos deixemos esmagar por elas e nos abramos ao sabor daquilo que nos pode fazer verdadeiramente felizes, apesar de tudo. Há dias animei o seminário “Vitamina G” , pois tantas vezes ignoramos o poder de nos sentirmos gratos e da transformação global que provoca quem tem a vitamina G(ratidão). Já há bastante tempo encontrei esta Ted Talk de David Steindl Rast que explica muito bem a fonte da felicidade que todos procuramos.

Ora vejam:



E como é que no próximo ano letivo os nossos Clubes Ubuntu podem replicar esta “educação para a gratidão”? A Universidade de Berkeley nos Estados Unidos, tem boas sugestões aqui. Talvez assim alcancemos um novo patamar do nosso desenvolvimento: Homo Sapiens…Gratus!

Regressaremos com um “Cuidar dos Laços”, especial “Férias”, a 27 de julho, com as nossas pistas para um tempo de descanso!

Comments


bottom of page