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  • Writer's pictureRui Marques

Discernimento, Foco e Adaptação - Uma leitura das condicionantes do Contexto

Texto para o livro “O futuro da educação em Portugal: tendências e oportunidades: um estudo de reflexão prospectiva”, coordenado por Roberto Carneiro, no âmbito da iniciativa 2020 – O futuro da Educação em Portugal A abrir



Ao ser proposta uma leitura transversal dos vários Estudos sectoriais, produzidos no âmbito do trabalho prospectivo “2020 – O Futuro da Educação em Portugal”, em particular das Dinâmicas do contexto, externas ao sistema educativo, procurou-se encontrar alguns eixos estruturantes de interpretação do que está – e, previsivelmente, vai – acontecer, em Portugal, à volta da Educação e da Escola, em particular na Sociedade, nas Empresas e nas Famílias. Dessa forma, tentaram-se prescrutar sinais e sintomas, ventos e marés, factos e intuições que, mais tarde ou mais cedo (provalvemente mais cedo), influenciarão a Educação em Portugal e que, desejavelmente, também por ela serão influenciados.


Optou-se por evitar uma simples síntese das teses dos Estudos sectoriais, pois isso desvirtuaria a sua riqueza e identidade própria, transformando numa amálgama inespecífica, peças que exigem e merecem uma leitura atenta e integral. Procurou-se antes, através de sucessivas leituras cruzadas, a inspiração para a construção de uma Trilogia – porventura pouco ortodoxa - à volta da qual se organizam sobretudo traços da observação do quotidiano que ilustram ideias que os diferentes autores fixaram nos seus estudos. Propositadamente, optou-se por uma presença muito marcada de uma perspectiva de mercado um pouco “herética” num conjunto de documentos como este, mas, a nosso ver, interessante como complemento a um acervo notável de estudos científicos.


A escolha – era necessária uma escolha – dos três eixos recaiu num complexo de desafios que respondem a outras tantas causas/consequências primárias neste mundo complexo e incerto que vamos construindo. Assim, surge em primeiro plano, o Discernimento, como desafio à Era da Abundância e da Diversidade, da Contradição e da Complexidade. Depois, vem o Foco, como desafio ao tempo da Atenção centrada no Cliente/consumidor, da afirmação do relevo do cidadão ou – ambição máxima - da primazia da pessoa humana. Conclui-se com a Adaptação e Inovação, enquanto desafio às velocidades e amplitudes da mudança.


Esta organização não é inocente. Reflecte a esperança que será possível agir sobre um mundo complexo e inesperado, dando-lhe sentido e direcção. E que, por isso, é esperado da Educação um insubstituível apoio na construção de discernimento, foco e adaptação inovadora.





2. Discernimento


Se olhássemos o Mundo pela perspectiva do Mercado diríamos, que se vive, no lado da oferta, uma Era de abundância e de diversidade[1], provavelmente sem paralelo na História da Humanidade. Do lado da procura, apesar das limitações e das excepções, existe um assinalável incremento na capacidade de consumo da oferta disponível – e de novas exigências – que retroage positivamente, estimulando mais oferta.


Mas não se trata de uma abundância monocromática, nem de uma diversidade coerente. A complexidade e a contradição somam-se como características estruturantes do tempo presente futuro. Vive(re)mos num labirinto, rodeados de resmas de informação, num arco-íris de opções. É, e será, cada vez mais um mundo angustiante para indecisos – tantos caminhos! - e perigoso para simplistas – destruídos pelas armadilhas da complexidade.


É provavel que, apesar dos sobressaltos, estas tendências se consolidem nas próximas duas décadas. Por isso, emerge a necessidade imperiosa de desenvolver e consolidar, a nível individual e colectivo, a capacidade de discernimento saber, em cada momento, fazer as perguntas certas, conhecer e seleccionar a informação disponível relevante e, sobre ela, fazer um juízo. Em consequência, tomar opções, operacionaliza-las e, finalmente, avalia-las, integrando a aprendizagem decorrente da experiência na sua capacidade de discernimento.


Para clarificar esta leitura, detenhamo-nos em alguns exemplos paradigmáticos.


A ascensão do consumo, estimulado por uma Economia de Mercado ufana e triunfante, que transporta uma oferta sempre crescente de bens e serviços é evidente e, potencialmente, contagia todos os domínios do consumo. Do Entretenimento à Indústria automóvel, dos Media aos Hipermercados, das Indústrias culturais à Internet, multiplicam-se as referências e as ofertas. As mais recentes tendências de segmentação e de personalização da oferta aumentam ainda mais este registo, indo ao extremo de ter tantos sub-produtos quantos os sub-grupos de consumidores.


A sustentar esta crescente capacidade aquisitiva dos consumidores, está naturalmente a capacidade de, a partir dos seus meios financeiros disponíveis, libertar um percentagem significativa para essas opções, mas também o recurso ao crédito que se vulgarizou e que constituiu um forte estimulo a esta euforia, ainda que com funestas consequências futuras.


Neste movimento – como nos restantes – assumem particular relevância as novas gerações, que na óptica do Grupo I, são responsáveis pela “difusão generalizada de um modelo de consumo e do respectivo capital simbólico(..), apoiada na mundialização dos “media””.


Também na vida das Empresas, esta dinâmica tem várias expressões. Decorrente da globalização, abriram-se mercados enormes, que ultrapassam fronteiras geográficas ou hábitos culturais. Por outro lado, a já referida segmentação fina do consumo, criou uma diversidade de oportunidades – e de ameaças – para a afirmação de produtos e serviços. Ambos os movimentos ocorrem num ambiente de fortíssima concorrência que exige, desde logo, uma enorme capacidade de discernimento empresarial.


A afirmação de grandes espaços de consumo, com uma oferta muito diversificada, com um fluxo de visitas e de compras sempre crescente ou a explosão da oferta televisiva que em Portugal, numa década, passou de dois canais para os actuais trinta da TVCabo e que crescerá ainda mais com a Televisão Digital Terrestre dá-nos mais confirmações desta tendência.


Neste contexto, é incontornável, um olhar – ainda que muito breve – para o papel dos media, não só na dimensão quantitativa já referida, mas também na sua componente qualitativa. A ascensão progressiva dos meios de comunicação social de massas, entre os quais a televisão é rainha, induziu, entre outros efeitos, o acesso instantâneo e a baixo custo, a uma exponencial oferta de informação e lazer, sem paralelo no passado. Soma-se uma redefinição das distâncias que a imagem em tempo real altera – torna perto o que acontece longe, se comunicado de imediato - ou ainda a proximidade ao “star system” que se dessacraliza e se torna familiar. Acresce que é um ímpar difusor de modas e de comportamentos, de ideias e de imagens, ditando assim um património comum – local e global – que unem audiências atentas e, consciente ou inconscientemente, obedientes.


Em especial, as novas gerações, que são ávidas consumidoras de televisão[2], apropriam-se de inúmeros inputs que integram na sua construção, dispondo por isso de um impressionante volume e uma incrível diversidade de informação que lhes chega por esta via.


Essa janela para o Mundo, de onde, no conforto da nossa sala, se vê tudo o que é mostrado – embora se julgue ver tudo o que se passa.. – está, no entanto, a sofrer alterações significativas. A multiplicação de escolhas disponíveis e o consequente “zapping” entre programas (ou excertos deles..) ainda só está no seu início. Num futuro muito próximo, a televisão interactiva, o “video on demand” ou a web-tv vão introduzir mudanças radicais, onde se afirmará.... a abundância, a diversidade e a complexidade, geridas por uma capacidade de interactividade crescente que colocará na mão do espectador um poder exponencial e uma enorme exigência de discernimento[3].


Mas nenhum exemplo há como a Internet para evidenciar esta afirmação de abundância e diversidade. A disponibilidade de, em tempo real, aceder a um manancial de informação incalculável e sempre em crescimento, bem como a possibilidade de interagir com milhões de outras pessoas presentes nessa mesma rede, desenvolvendo relações e comunidades, é um fenómeno estruturante das próximas décadas.


Esta dimensão multiplicativa do mundo dos bits – por contraposição ao dos átomos – decorre do movimento imparável da revolução digital que todos os autores de estudos sectoriais referem. A “digitalização geral do processamento, transmissão “armazenamento” da informação nas suas diversas formas (voz, dados, imagens fixas e áudio/vídeo) e desenvolvimento das actividades de codificação - “software” “ são apontadas pelo Grupo I “como actividades fulcrais para o funcionamento das economias;”.


Em consequência desta revolução, constata-se a transformação da informática, das telecomunicações e dos conteúdos em protagonistas decisivos dos tempos modernos. A sua dessacralização e a generalização, estimuladas pelo conceito do “amigável” e pela redução imparável do preço e da dimensão, a que se somaram os recursos multimédia e a crescente capacidade de armazenar e gerir dados, transformaram radicalmente o cenário da informação e da comunicação.


Com essas mutações, aconteceu a natural e desejável expansão da informática, fazendo-a sair das empresas e dos gabinetes de investigação e transportando-a, para todos os campos de intervenção, nomeadamente para os lares, para a escola, para a cultura e para a arte. Ao mesmo tempo, as telecomunicações avançavam a passo largo conquistando permanentemente novos horizontes e convergindo para uma integração num triângulo dourado : a informática, as telecomunicações e os conteúdos. Conteúdos, que através da digitalização, se tornam mais acessíveis e adaptáveis a inovadoras composições.


Esta realidade da digitalização tem, obviamente, uma importância crucial na história da Humanidade, que condicionou decisivamente a aparição da Sociedade de Informação. No entanto, a sua potenciação a valores nunca sonhados aconteceu com o desenvolvimento das redes de computadores com a circulação no seu seio de milhões de bits, em múltiplos sentidos. Assim o computador pessoal, com capacidade de se ligar através de uma simples rede telefónica, a outros computadores, formando redes cada vez mais complexas, abriu a porta à interactividade, sem limites geográficos ou culturais, deixando o espaço de ser a variável decisiva, cedendo o lugar ao tempo como factor estratégico.


Estes dados condicionarão, na perspectiva do Grupo I, um “investimento substancial nas Redes de Telecomunicações e Difusão Audiovisual, com escala de operações mundial, para destinatários fixos ou móveis, explorando a interactividade e a transmissão multimédia” bem como a “transformação paralela dos processos de concepção e desenvolvimento de produtos e sistemas , dos meios de educação e dos meios de entretenimento, em torno das mesmas famílias de tecnologias - imagem digital, grafismo computacional, simulação, realidade virtual, etc.”.


Aparentemente também a circulação do dinheiro beneficiou deste fenómeno da convergência e transformou-se numa expressão de abundância, ainda que porventura ilusória. Os enormes fluxos financeiros diários, sustentados numa enorme mobilidade e liberdade de circulação de capitais, ultrapassam, cada dia, várias vezes o volume total de dinheiro existente.



Num outro registo, ao nível cultural e étnico, a mobilidade crescente oferecerá – desejada ou não – a diversidade de expressões[4]. Os grandes movimentos migratórios, provocados ou desejados, em busca da salvação ou das miragens do “ouro”, ou simplesmente à procura de uma vida melhor, trouxeram-nos a convivência com um mosaico de gentes e de costumes muito diversificado. O Grupo III salienta este fenómeno, referindo que o número de estrangeiros com residência oficial em Portugal– não considerando por isso, os clandestinos – já ultrapassou os 200.000, tendência essa que se irá acentuar com a agenda de grandes obras públicas previstas (Metro do Porto, Alqueva, Euro 2004, Novo aeroporto..). Esta diversidade traz evidentes problemas de exclusão e marginalização, e consequente desafio para a integração com respeito pela diversidade e diferenciação, que o Grupo II, analisou em capítulo próprio, do qual sublinhamos o interesse de leitura detalhada.


Também o contacto mediado pelos grandes meios de comunicação com outras realidades culturais e étnicas, que transforma o mundo numa pequena aldeia, nos estimula essa consciência multicultural.



No turbilhão da abundância e da diversidade despontam também consequências negativas, das quais se destaca o desperdício, o esgotamento do planeta e o surgimento de perigosas crises ambientais. Como o Grupo III, bem refere “o crescimento da actividade económica implica uma permanente intensificação da acção humana sobre a natureza, ao nível da exploração dos recursos naturais e da ocupação dos espaços, numa lógica totalitária de crescente apropriação da Natureza pelos humanos, potencializada pelo desenvolvimento tecnológico, o qual possibilita uma crescente capacidade para intervir nos ecossistemas de forma a perturbar significativamente os seus equilíbrios. A crescente consciência dos riscos que tal lógica pressupõe, em termos do esgotamento dos recursos e da degradação dos espaços, tem conduzido à consolidação da noção de "desenvolvimento sustentável" através da qual se procura conceptualizar uma nova visão do crescimento económico e da promoção do bem-estar social.


Os exemplos – positivos e negativos - poderiam continuar a ser apontados, numa lista quase infindável. Desta tendência – abundância, diversidade, complexidade e contradição – emerge pois a necessidade de reforço das capacidades de discernimento dos individuos e das suas comunidades, por forma a enfrentar, com sucesso e equilíbrio, situações cada vez mais complexas e difíceis. Em certa medida, o passaporte para o futuro exige como visto, a capacidade de escolher, sustentada a montante no acesso e na leitura dos dados e a jusante na capacidade de operacionalizar e avaliar decisões.




3. Foco




Uma das tendências em consolidação no mundo contemporâneo é a transferência do enfoque da produção para o consumo, com a consequente atenção centrada no consumidor. É das suas opções de escolha que depende o (in)sucesso de um produto ou serviço.


No quadro da diversidade, face à multiplicidade da oferta disponível, já não basta produzir – ao invés, a concentração exclusiva no sistema/processo produtivo é o caminho mais curto para o insucesso de um produto ou serviço. O essencial será, cada vez mais, conhecer as necessidades e os desejos dos potenciais clientes e a partir desse conhecimento, construir respostas adequadas, a um preço justo, mais rápido que a concorrência. Essa construção faseada inclui etapas de teste, passando pelo crivo fino de focus-group ; um benchmarking sofisticado; um planeamento de produção rigoroso e, quase sempre, um enorme esforço de comunicação que promova a notoriedade, experimentação e fidelização do cliente. Esta alteração da cadeia de valor, induz uma reengenharia dos negócios, colocando o Marketing numa função central da empresa.


E note-se que esta relevância estratégica da centragem no cliente vai muito além do momento da definição do produto/serviço. Todas as Empresas com alguma ambição, não dispensam Serviços cada vez mais sofisticados de Atendimento ao Cliente, através dos quais – fiéis depositários das queixas, sugestões ou dúvidas dos clientes – aprendem permanentemente sobre os seus clientes, procurando informação que as ajude a melhorar a oferta disponível e a antecipar oportunidades que esses inputs de clientes evidenciam. A complementar esta vertente, o Atendimento ao Cliente cumpre uma outra missão vital na dinâmica contemporânea: a fidelização de clientes, que são sujeitos a uma pressão constante da concorrência e que por simples impulso de experimentação ou por um descontentamento – ainda que pequeno – com o atendimento ao cliente podem mudar de fornecedor.


Uma outra vertente interessante do movimento de focagem no cliente, está nas novas interpretações de Qualidade. Durante muito tempo, esta era medida num registo de processo produtivo, testando a sua eficiência. Era o tempo da verificação dos procedimentos segundo um livro de normas pré-estabelecidas. Mas rapidamente se concluiu como sendo insuficiente essa abordagem e emergiu o conceito da Qualidade na óptica do consumidor, enquanto elemento complementar determinante na aferição da Qualidade.


Também no sistema de I&D se clama por um outro foco, como refere o Grupo IX, de Carlos Costa, ao sublinhar que se deve “passar de uma abordagem de comandada pelos produtores de tecnologia – “technology push” - para uma abordagem mais comandada pela procura dos utilizadores de tecnologia – “demand pull” – com uma maior aceitação do papel crucial dos utilizadores e com o reconhecimento implícito de que o sucesso técnico não implica ou garante o sucesso económico” e assim “ focalizar a questão do desenvolvimento tecnológico também do lado da procura, e não só do lado da oferta, dado que a inovação e a aprendizagem são processos interactivos que envolvem tanto conhecimento tecnológicos como o conhecimento das necessidades do utilizador – o que implica envolver os utilizadores nos projectos(..)”.


A reforçar esta tendência de transferência de foco, a interactividade mais ou menos instantânea torna incontornável a necessidade e ouvir e responder de imediato, de uma forma atenta e personalizada, a cada cliente, aprendendo rapidamente através desse canal aberto, seja via call center, Internet ou mesmo atendimento personalizado.


Também nos media, este aperfeiçoamento e aceleramento da interactividade é um dado vital para o sucesso e sobrevivência dos actuais meios de comunicação social. Estamos a passar de uma lógica unidireccional, cultivando, naturalmente, um modelo de cidadão passivo e obediente, que é quase só espectador, para um novo modelo de comunicação, com cidadãos potencialmente activos e intervenientes, que interagem directamente com a fonte de informação e que são eles próprios fontes de informação. Por isso, nenhum MCS sensato pode deixar de estar permanentemente atento ao seu espectador, que passou a deter uma quota de poder, como jamais se imaginou possível.


Também a actividade política mais sofisticada integrou os mecanismos de permanente monitorização dos eleitores, por forma a corresponder aos seus sinais. Governar – ou fazer oposição – por sondagens, no dizer da vox populi é mais um sinal, mesmo que contestável, de foco no destinatário do processo, no caso, os eleitores. É claro que tendo os eleitores uma capacidade real de expressão de quatro em quatro anos, num sistema democrático ainda imaturo e numa consciência cívica colectiva pouco desenvolvida, este processo está longe de ser suficientemente interactivo e co-responsabilizante como já o é noutros terrenos.


O Estado e alguns dos seus grandes sub-sistemas, como a Educação e a Saúde, representa o terreno mais avesso a esta tese. Aí (quase) tudo é desenhado e operacionalizado apesar do cidadão. O sistema é o centro e o absoluto. Como alguns ironicamente referem, os sistemas até funcionariam...se não tivessem alunos ou doentes, respectivamente. É particularmente sintomático o entusiasmo que foi gerado à volta da abertura da Loja do Cidadão, enquanto exemplo de centragem no cidadão. É assim sublinhado, por um lado, como estamos longe deste objectivo – se fosse comum, não teria sido notícia e, muito menos, bandeira – e, por outro lado, que é possível esta revolução.


Enquanto não for possível uma mudança radical de atitude e de cultura – simplemente colocando o foco no cidadão, e fazendo dele o verdadeiro centro e, no seu conjunto, o único absoluto - todas as reformas institucionais falharão.


Claro que não está em causa, o acerto, o mérito ou a adequação das decisões desencadeadas a partir desta abordagem (foco no consumidor / cliente / cidadão). Também por este enfoque é possível tomar decisões erradas, embora a probabilidade seja significativamente menor. Como também não se defende aqui um mimetismo completo em relação ao comportamento / expectativas do consumidor. É possível e desejável que o “produtor” induza e proponha novos conceitos e novos caminhos, tendo em vista o cumprimento da sua missão.

O que é novo e, na nossa opinião, determinante enquanto leitura das condicionantes externas, é que quem ignorar este posicionamento de foco no cliente/cidadão/pessoa estará “fora-de-jogo” num futuro muito próximo. E esta atitude cultiva-se desde o nível micro, no indíviduo, ao macro, dos Estados, ao longo do tempo.



4. Adaptação e Inovação



Se há um conceito que faz o pleno para descrever os tempos actuais e os do futuro próximo é a mudança. Tudo muda a uma velocidade vertiginosa. Os consumos, os conhecimentos, as tecnologias, as modas, os protagonistas.. tudo muda. Dir-se-á que sempre assim foi. Em certa medida, é verdade. E se “Todo o Mundo é feito de mudança/tomando sempre novas qualidades[5], os tempos presentes e futuros acrescentam uma pequena grande diferença: há mais e maiores mudanças em períodos de tempo cada vez menores.


Perante este cenário dinâmico, em constante renovação e reconstrução, torna-se necessário prever a Adaptação como condição sinequanon de sobrevivência e sucesso a que se deve somar obrigatoriamente a Inovação como resposta adequada a novos problemas e desafios que se colocam às pessoas e às comunidades.


Essa tendência, que se vem consolidando, é focada com destaque por todos os estudos sectoriais. De certa maneira, as várias abordagens são mapas de mudanças já concretizadas, desejadas ou temidas.


Na abordagem do Grupo III são descritas algumas das mais relevantes mudanças em curso no nosso País. Ao nível demográfico, é evidente o declínio da natalidade, a estagnação da mortalidade e o envelhecimento, que acontece na base e no topo da pirâmide. Nas mudanças sociais e económicas, salientam-se a alteração na estrutura e na organização das famílias[6], com a redução do agregado familiar, quer em número, quer em gerações presentes bem como a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho. Por outro lado a “reestruturação produtiva, onde se destacam a crescente expressão de das funções terciárias e as suas consequências na procura de mão de obra qualificada” induz a necessidade de permanente requalificação, associada à “emergência de novos saberes e à necessidade de um ajustamento dinâmico e flexível entre a oferta e a procura de força de trabalho”.


Mas é no domínio do Espaço/Território que o Grupo III se detem com maior atenção. Destaca como factor determinante da reestruturação do espaço português, a integração, em 1986, nas Comunidades Europeias que, no seu entender, provocou “profundas alterações na ocupação e organização do território, com reflexos nos valores e comportamentos da população”. É referida “a melhoria das acessibilidades, mormente nos domínios das rodovias e das telecomunicações” num registo geral de melhoria no acesso ao bem estar e à qualidade de vida.


Refere-se igualmente que “as disparidades regionais têm vindo a diminuir” e que das alterações registadas decorreu um alargamento da “litoralidade no território nacional(..) ao mesmo tempo que promoveu a continentalização, não só pelo grande incremento das relações com o interior da Peninsula Ibérica, como também pelo privilégio dado aos transportes terrestres nas ligações com outros países da União Europeia”. Por outro lado “ o grande aumento das mobilidades, regionais e locais, proporcionado pelo automóvel individual), associado à alteração profunda na natureza do trabalho tanto o industrial, como o agrícola ou o dos serviços – que ganharam maior autonomia relativamente ao tempo e ao espaço - , contribuiram para aproximar os modos de vida das áreas urbanas e das áreas rurais”.


Já no que diz respeito à territorialidade, é saliente que, sendo muito forte ao nível local (cidade, município, freguesia) tende, no entanto, a esbater-se nas áreas mais densamente urbalizadas.


A estas perspectivas, o Grupo I somou elementos muito relevantes, decorrentes de outras dimensões da mudança, avançando com sugestões concretas de movimentos de adaptação prioritários. Dos vários contributos importa destacar, através do seguinte quadro, os que ligam as tendências mundiais e europeias às novas exigências de competências necessárias e de perfis profissionais desejáveis.


1. TENDÊNCIAS MUNDIAIS E COMPETÊNCIAS NECESSÁRIAS

Ordem internacional mais multipolar. Procura de difíceis equilíbrios entre abertura, diversidade e coesão.

Conhecimento dos grandes problemas mundiais na óptica da cidadania mundial; capacidade de inter-relação cultural; domínio de língua estrangeira; capacidade de desenvolvimento da identidade cultural própria

Problemas ambientais agravados

Maior consciência ecológica enquanto consumidor, produtor e cidadão

capacidade de actualização e diferenciação das competências

Capacidade de aprendizagem ao longo da vida; perfis profissionais preparados para pensar globalmente e actuar localmente

competitividadede um produto ou de um serviço, diferenciado e com capacidade de resposta just in time

Percepção da missão da organização, capacidade de funcionamento em equipa e em rede, capacidade criativa no trabalho, percepção da qualidade e sensibilidade às necessidades do cliente, com desenvolvimento da inteligência emocional; perfis profissionais na área do design, do software específico, da gestão da produção e do marketing

Construção do ciberespaço

Conhecimento da estrutura do ciberespaço; capacidade de utilização do computador, do multimédia e das telecomunicações na óptica do utilizador; conectividade; domínio da língua materna; domínio de língua estrangeira

Deslocação da fronteira tecnológica: informação e comunicações, automação e robótica, tecnologias do espaço, interacção energia/ambiente, ciências e tecnologias da vida

Conhecimento básico em matemática; cultura científica e tecnológica de base; novos perfis profissionais que permitam ao país acompanhar e participar na deslocação da fronteira tecnológica nas áreas referidas

Deslocação da fronteira tecnológica: informação e comunicações, automação e robótica, tecnologias do espaço, interacção energia/ambiente, ciências e tecnologias da vida

Conhecimento básico em matemática; cultura científica e tecnológica de base; novos perfis profissionais que permitam ao país acompanhar e participar na deslocação da fronteira tecnológica nas áreas referidas

Diferenciação crescente dos trabalhadores em dois grandes grupos: os trabalhadores que executam operações rotineiras e pré-definidas e os que desempenham operações com conteúdo mais criativo na frente tecnológica, de organização ou da relação directa com o mercado

Capacidade de aprender ao longo da vida; capacidade de definir um projecto pessoal de progressão para novos perfis profissionais, capacidade de promover a empregabilidade

Dinâmicas demográficas contrastadas e transição para sociedades em envelhecimento.

Capacidade de relacionamento entre gerações, entre sexos e com minorias numa óptica de igualdade de oportunidades e de co-responsabilização

Reformulação da intervenção do Estado: função prospectiva, preventiva, reguladora e catalisadora;

maior capacidade de iniciativa, participação e co-responsabilização

2. TENDÊNCIAS EUROPEIAS E COMPETÊNCIAS NECESSÁRIAS

Adopção do euro, aumento das pressões competitivas, mas também multiplicação das oportunidades de investimento numa escala internacional​

capacidade de aprendizagem ao longo da vida; actualização dos perfis profissionais disponíveis em geral; perfis profissionais preparados para pensar globalmente e actuar localmente

Risco de polarização das funções nobres e não nobres entre regiões centrais e periféricas, mas também crescentes oportunidades de alianças empresariais no quadro europeu​

perfis profissionais de topo em gestão, ciência e tecnologia

Oportunidades crescentes de cooperação entre Estados membros ao nível das políticas estruturais​

perfis profissionais especializados na gestão de redes de cooperação internacional

Maior selectividade e rigor nos mecanismos de coesão económica e social​

perfis profissionais especializados na gestão de políticas de coesão económica e social

Desenvolvimento do sistema político europeu e de uma sociedade civil europeia

cultura de cidadania europeia e capacidade de valorização da identidade nacional; perfis profissionais para gerir as políticas europeias/nacionais de acordo com o princípio da subsidariedade;








Modelos de Situações Profissionais

Tradicional

Emergente

Configuração dos empregos

postos de trabalho/empregos bem definidos, com tarefas simples e fragmentadas

empregos de geometria variável, com definições menos especificadas

atribuição individual das tarefas e avaliação dos resultados individuais

ênfase no trabalho de grupo, interacção entre colegas e avaliação da “performance” do grupo

lógica de posto de trabalho

lógica de competências

Ao nível operacional, trabalho rotineiro, separação entre pensamento e acção

ao nível operacional, trabalho mais abstracto e intelectual. No lugar de rotinas, necessidade de reacção, antecipação, criatividade, tomada de decisões e resolução de problemas. Combinação entre pensamento e acção

grande fragmentação do saber​

tarefas múltiplas com conhecimentos multidisciplinares

Autonomia reduzida ou inexistente, ênfase no trabalho prescrito

variações da actividade real relativamente à actividade requerida, no sentido de compatibilizar com os objectivos a alcançar

interdependência sequencial

interdependência sistemática

ênfase na especialização

ênfase na polivalência e flexibilidade

Gestão dos recursos humanos e relações de trabalho

organização rígida do emprego, com classificações profissionais baseadas nas habilidades e antiguidade

organização flexível do emprego, sendo este encarado como função da adaptabilidade

classificações profissionais como instrumento central de hierarquização dos empregos e dos trabalhadores

classificação com base nas competências detidas

descrições de postos de trabalho/empregos de banda estreita

descrição de perfis de banda larga, integrando referenciais de competências

relações industriais opostas, negociação colectiva e vias para a resolução de conflitos. Relações baseadas no poder

compromisso explícito de longo prazo entre o empregador e o trabalhador, através de contratos de trabalho e partilha de dividendos. Atitude mais participativa

salários elevados para compensar empregos com conteúdos “pobres”

políticas de recursos humanos de envolvimento e desenvolvimento de competências e sistemas alternativos de salários por objectivos e riscos

Papel e representação do trabalhador

execução de tarefas prescritas

não se limitar ao prescrito

precisão nas tarefas prescritas

papéis e funções desejadas

execução de operações

responder às situações e reagir aos imprevistos e acontecimentos

adopção de um comportamento

escolha de uma conduta

alguém que sabe fazer

alguém que sabe agir

Operador

Actor

Conformismo

Profissionalismo

Aprendizagem

formação adquirida de uma vez por todas

formação contínua, numa perspectiva de aprendizagem ao longo da vida

aprendizagem passiva

auto-aprendizagem e responsabilidade pela própria formação

Exigências profissionais

destreza, rapidez de execução

rapidez na percepção, reacção e coordenação inteligente

responsabilidade baseada no comportamento, através do esforço e disciplina

responsabilidade baseada nas iniciativas

domínio profissional através da experiência

domínio profissional através de operações cognitivas, de identificação e resolução de problemas

ênfase na habilidade

ênfase na competência


Construído pelo Grupo I a partir de Boterf (1998), IRDAC (1994) e CE (1995)



Estas sínteses permitem-nos, através de uma leitura simples, compreender a verdadeira dimensão da mudança em curso e da consequente necessidade de adaptação que, reforçamos, deve ser uma adaptação inovadora. Quer isto dizer que não se trata de aplicar as mesmas soluções a novos cenários, mas sim encontrar novas respostas a novos problemas.


Nesta linha de reforço do papel estratégico da inovação, o Grupo IX, de Carlos Costa, encerra no seu estudo sectorial uma análise detalhada da importância da inovação no quadro do desenvolvimento económico, educação e formação profissional. Tem como ponto de partida a “evidência resultante de estudos recentes que demonstram que há uma relação consistente, ao longo do tempo, entre crescimento/desenvolvimento económico de um dado país/região e a taxa de inovação e de adopção/difusão das próprias inovações”, com consequências óbvias ao nível da natureza do emprego, formas de organização, as estratégias das empresas e as competências/qualificações dos trabalhadores.


Considerando não só as inovações radicais, mas também as incrementais, sublinha-se pois que “as acções de inovação que determinam o desenvolvimento económico não são só as que conduzem à introdução de novos produtos, as chamadas inovações radicais, como também todas as modificações na cadeia de produção/comercialização de uma empresa, de um sector ou de um país que criam uma nova procura ou que permitem explorar um mercado existente e que, ao dar uma vantagem competitiva a quem as desencadeia, se traduzem numa melhoria dos resultados da empresa e num aumento do valor acrescentado por activo de um dado país ou de uma dada região, as chamadas inovações incrementais”. O autor considera assim “inovador, o indivíduo ou a entidade que se revela capaz de por em prática uma nova ideia fazendo um novo produto ou introduzindo um novo processo de produção. Uma nova ideia que resulta do domínio dos conhecimentos pertinentes já disponíveis – a sua absorção – e cujo resultado se materializa num novo conhecimento. E uma capacidade de inovação que reflete uma vontade de assumir riscos”.


É claro que o “processo de inovação que sustenta o crescimento / desenvolvimento económico não depende só de factores internos às empresas, mas também da respectiva envolvente” sendo que “ a inovação tem tanto uma dimensão tecnológica, como uma dimensão não-tecnológica, nomeadamente de cariz institucional, educativo e social. A orientação e a eficiência das instituições, dos mecanismos e dos elementos que determinam a produção, a difusão, a adaptação e a aplicação dos novos conhecimentos por parte das empresas, são factores determinantes quer da sua capacidade de absorção/imitação, quer da sua capacidade de produção de novos comhecimentos. Isto é, o contexto nacional tem uma influência profunda sobre o desempenho das empresas e das economias e, por essa via, sobre a dinâmica de inovação tecnológica”.


Este contributo – do qual importa uma leitura mais aprofundada – comprova, de um ponto de vista económico, a prioridade da inovação enquanto resposta à mudança. Mas cremos que esse mesmo desafio – a inovação – se estende a todos os campos da sociedade, quer na perspectiva incremental, como na radical. Da educação à saúde, da política à religião, são muitos os campos onde a resposta a novos desafios do contexto só pode ser a inovação.




5. Conclusões


Esta Trilogia – Discernimento, Foco e Adaptação/Inovação – procurou evidenciar atitudes possíveis face aos desafios - da abundância, da diversidade, da complexidade, do foco no cliente e da mudança - em que as Sociedades contemporâneas estão envolvidas. Cremos que se tratam de pilares essenciais do cenário ideal de convivência com essa realidade, que todos desejam – a Sociedade Educativa. Esta, exige de todos os actores uma consciência firme das oportunidades e das ameaças e um esforço de compreensão dos seus pontos fortes e dos pontos fracos para a alcançar.


Da equação e dos cruzamentos dessas análises resulta muito claro que há uma – talvez a única – exigência, que também é responsabilidade, universal e incontornável: a aprendizagem ao longo da vida. Aí estará a principal alavanca de integração/exclusão das pessoas, de competitividade/falência das economias ou de desenvolvimento/regressão dos países. Não haverá Sociedade Educativa sem concretizar esta prioridade.


Este é o elo que une a Trilogia.


Todos os Grupos evidenciaram esta convicção. O Grupo II, por exemplo, acredita que “o ensino e a formação serão uma indústria florescente, sobretudo na medida em que souberem, ao mesmo tempo, recorrer às novas tecnologias da informação e da comunicação e adaptar a oferta às necessidades específicas de cada indivíduo/cliente, um ser em formação ao longo da vida toda. Os recursos financeiros afectos à formação e à aprendizagem ao longo de toda a vida, nas empresas, nos centros de formação e nas escolas privadas, nos CDs, nas várias “net” disponíveis e na televisão interactiva, portanto em casa de cada um, tenderão a ser comparáveis e até a superar o montante dos recursos afectos pelo Estado ao ensino formal e tradicional. A interactividade e a auto-aprendizagem serão características típicas destes meios, o que, à partida, pode estimular muito o acesso e o sucesso de cada indivíduo.”


Por seu lado, o Grupo I aponta para Portugal, algumas propostas concretas, das quais se destaca:


§ desenvolver as bases de dados para apoio à formação aberta e multimédia, de iniciativa individual ou colectiva, impulsionando a constituição de centros de recursos em conhecimento, exemplo típico de nova info-estrutura


§ concretizar o conceito de serviço público de comunicação social sob novas formas, com particular atenção para a televisão por cabo


§ estimular as empresas a desenvolver organizações qualificantes, dotadas de maior flexibilidade, polivalência e apelo à iniciativa e criatividade do trabalhador


§ transformar as escolas e os centros de formação em organizações que aprendem com o espaço global – learning centers – para melhor ensinarem servindo os diferentes grupos da sua comunidade local


§ organizar sistematicamente as parcerias para a educação e a formação ao nível regional e sectorial, por forma a rentabilizar e a reorientar as capacidades instaladas


§ enriquecer a actividade dos professores e formadores: de meros transmissores de conhecimentos, a animadores de processos de aprendizagem, a conselheiros do projecto pessoal e profissional do formando, a organizadores das interfaces com a comunidade local


§ flexibilizar a oferta de educação e formação a todos os níveis, do básico ao superior, sob a forma de unidades de crédito capitalizáveis


§ desenvolver a indústria de conteúdos, como interface entre a produção científica e cultural e a educação e formação

Mas, para além de ampliar e desenvolver a oferta de conhecimento, é decisivo criar uma mola impulsionadora do lado da procura de conhecimento, por parte das empresas e dos próprios indivíduos. Não tenhamos ilusões: é esta percepção cultural do valor do conhecimento que explica o desenvolvimento e a competitividade de sociedades como a alemã, a francesa ou a holandesa. Isto implica, nomeadamente:

§ que as empresas aprendam a cultivar a sua árvore de competências como o seu mais precioso instrumento de diferenciação e competitividade


§ que os indivíduos disponham de um portfolio de competências, capaz de comprovar, de forma simples e flexível, o seu acumulado de qualificação, obtido por via formal ou informal


§ que, com base num levantamento prospectivo das necessidades de formação, seja criado um referencial das competências básicas que todos devem possuir, assim como um repertório de perfis profissionais de base larga, estimulando a mobilidade profissional, a formação, a competitividade das empresas e a defesa do emprego


§ que os serviços de orientação escolar e profissional estejam apetrechados para ajudar os indivíduos, jovens e adultos, a fazer o seu balanço e o seu portfolio de competências e a renovar regularmente o seu projecto profissional, pessoal e de formação


§ que a contratação colectiva e as políticas de gestão de recursos humanos nas empresas estimulem de forma clara o investimento pessoal em formação, compensando-o no plano das promoções ou das remunerações, ligando-o à defesa da empregabilidade


§ que a flexibilidade na gestão do tempo de trabalho seja negociada por forma a prever tempo para a formação


§ que, para além dos subsídios públicos directos, incentivos fiscais e para-fiscais estimulem o investimento em educação e formação por parte das empresas e dos indivíduos



Finalmente, o Grupo III, na sua abordagem à “cidade da aprendizagem” defende que “o novo urbanismo terá de ser também o urbanismo da aprendizagem contínua. Ao longo da vida é necessário dispor de instrumentos que estimulem e proporcionem a aquisição de conhecimentos actualizados que permitam a valorização do cidadão e das comunidades.

Este urbanismo constituirá a via para a nova sociedade do bem‑estar, ambiente de competição acrescida e continuada entre pessoas e entre comunidades.

Este urbanismo da aprendizagem, que se pretende contínua, praticada ao longo da vida de cada cidadão, terá um sustentáculo fundamental e eventualmente o seu primeiro motor na convergência tecnológica decorrente da integração das telecomunicações e das tecnologias da informação. As auto‑estradas da informação constituirão a infra‑estrutura‑chave para a construção das cidades, vilas e lugares de aprendizagem. Por outro lado, vão permitir a integração na Polis dos que residem fora de centros, dos que fazem parte do urbanismo difuso.

No entanto, as sedes desse urbanismo virtual não serão suficientes para suportarem o novo urbanismo, o urbanismo da aprendizagem. Terão de ser complementadas por um renascimento de espaços físicos, de contactos e trocas presenciais, promotores de vivências e de solidariedades.

Programas como “A Escola Informada” ou “Cidades Digitais” têm um grande alcance no desenvolvimento do urbanismo da aprendizagem, mas deverão ser complementadas por acções no espaço vivido.

Os espaços do trabalho, onde é fundamental uma nova atitude, de empregados e empregadores, face à necessidade de ambos participarem na aprendizagem contínua. Por essa via também se reforçarão as ligações entre as empresas e o território. A aprendizagem pode/deve ser uma via para a regeneração económica e para a promoção social.

Os espaços de habitar, onde é necessário “sair” da casa para o quarteirão, para o lugar, para a unidade de vizinhança. Encontrar novos/velhos espaços públicos, que são de sociabilidade e de aprendizagem, um itinerário que deve levar sempre à Escola, enquanto espaço público de referência urbanística.

Os espaços de lazer, que complementam e se articulam com os anteriores. A aprendizagem e o lazer é o binómio‑chave da origem da própria escola, já com os gregos. Hoje esse binómio tem ainda mais acuidade, através dos jogos, das viagens, dos consumos culturais, do puro ócio.”


Desta forma, se conclui uma das sínteses possíveis das dinâmicas do Contexto em que a Educação viverá nas próximas décadas em Portugal. Um ambiente complexo e turbulento, onde as forças centrífugas da mudança e das constantes rupturas tornam difícil a sobrevivência de sistemas pesados e pouco flexíveis.

Repensar a Educação, num horizonte de duas décadas, exige, por isso, ter como ponto de partida um conhecimento profundo do contexto envolvente e a humildade de não se achar imune ao que se passa “lá fora”. Só assim será possível construir um modelo de Educação que contribua para dar sentido e direcção ao curso do Mundo, tendo em vista a plena realização de todas e cada uma das pessoas que habitam o planeta, num modelo de desenvolvimento sustentável e humanista. Ignorar ou menosprezar o contexto é, por isso, decretar o falhanço rotundo da missão da Educação e alienar o sonho da construção da Sociedade Educativa.

[1]“Não parece possível pensar as sociedades contemporâneas se não a partir do tópico da diversidade. Uma diversidade que não cessa de acentuar-se: as diferenças clássicas entre géneros ou gerações e as hierarquizações de inserção e estatuto socioprofissional têm sido redobradas pela multiplicação das origens nacionais e étnicas e pela pluralização dos valores e dos padrões comportamentais a que se referem os homens e as mulheres dos tempos de hoje”. Grupo II – J. Azevedo / A.S.Silva [2]“... De outro lado, acentua-se a incidência da capacidade formativa dos meios de comunicação social, com destaque para a televisão. Esta formação é, no entanto, comummente considerada deformadora, porque transmissora de violência, promotora do consumo como modo de alcance de sucesso e de realização pessoal e veiculadora de um excesso de informações, incontroladas e fragmentadas, produtora de uma “representação instantaneísta e descontinuitista do mundo” (Bourdieu, 1998). Existe um novo e explosivo modo de todos acederem à informação e, ao mesmo tempo, existe um excesso de informação fracturada, que comporta uma ausência de escolhas prévias e de hierarquização do que se aprende, em função de referentes educacionais estabelecidos. Ora, como lembra J. C. Tedesco, “ a ausência de eleição supõe a ausência de informação sobre as opções possíveis” (1995: 42). As crianças da “escola da televisão” chegam hoje à escola não só com padrões de referência débeis, mas também com padrões de referência diferentes daqueles que a educação escolar pressupõe existirem e sobre os quais ergue a sua acção...” Grupo II [3] “ Ao ruído e à atomização provocados pelos media, como que se tende a contrapor a autoridade do ambiente escolar, as aulas magistralmente ordenadas, os saberes hierarquicamente estruturados, um espaço social de que todos esperam um apoio ao crescimento pessoal de cada cidadão. Grupo II - J.Azevedo/A.S.Silva [4] “...As transformações empíricas deste fim de milénio levam a crer que o saldo global de tendências contrárias aponte para o reforço da multiculturalidade. Se é certo o vigor hegemónico dos valores, das disposições e das linguagens criadas e difundidas pelos centros produtores de imagens e signos preponderantes, à escala planetária – e por aí a diferença cultural devida às múltiplas inserções nacionais, regionais ou geracionais virá a esbater-se; também é certo que o que se elabora e circula é muito menos único e estandardizado e que os próprios processos de imposição hegemónica se materializam sob formas plásticas e adaptativas. Na situação portuguesa, é previsível uma atenuação das diferenças culturais devidas à diversidade regional e à dicotomia rural/urbano, ela própria arcaica, assim como uma relação bastante mais complexa entre a pertença social e a referência cultural; mas tudo leva a crer que o crescimento e a heterogeneização dos fluxos migratórios não deixem de reforçar essa nova (insistimos) imagem contemporânea do País, como país de imigração e sociedade multicultural..” Grupo II – J. Azevedo/A.S. Silva [5] Sonetos – Luis de Camões [6] “Passou a escassear o tempo familiar para tudo. Entre nós, particularmente após os anos sessenta, as mulheres incorporaram-se crescentemente no mercado de trabalho, reduziu-se o número de filhos por família e aumentou o número de separações e o número de filhos que vivem apenas com um dos pais ou com outros familiares. Não se vislumbra inversão da tendência, no futuro próximo. Os modelos educativos familiares entraram em crise, por exemplo quando se esboroou um modo tradicional e autoritário de exercício da autoridade, a vida urbana reconfigurou os tempos e os espaços de vida quotidiana, o que, no conjunto, transformou profundamente o quadro tradicional em que se processava a “socialização primária”. O que quer dizer, entre muitas outras coisas, que se está a modificar muito e a restringir a acção de um ambiente social cuja textura afectiva e relacional é única e porventura insubstituível no campo da educação e da socialização, em geral. A família modificou-se mais e mais rapidamente do que o modelo moderno de educação escolar.” Grupo II J. Azevedo / A.S.Silva

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