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  • Writer's pictureRui Marques

No final do dia, são as relações que fazem a diferença.


Já passou um ano desde que comecei a escrever-vos mensalmente. Tudo por causa de cuidar dos laços que se vão criando, para que não se desvaneçam e, ao invés, fiquem mais fortes. No final do dia, são as relações que fazem a diferença. Este mês, escolhi começar com um apelo – SOS Saúde Mental – bem como falar-vos do Ano Nacional dos Professores, que arranca em Janeiro de 2023. Mas também vos trago a nota pessoal de uma perda, que transformo em memória grata, e um vídeo precioso sobre a escada da vida.


No horizonte próximo fica já o Natal. Deixo-vos o desafio do silêncio interior para que seja um tempo de serenidade, ao invés do bulício que, tantas vezes, nos desfoca do essencial. E quanto a presentes? Sempre preferi o “tornar-se presente”. Com o tempo e a atenção que cada um/a à nossa volta merece. Esse será o Bom Natal que todos ambicionamos.



SOS Saúde Mental - ação urgente, precisa-se!


Por via das nossas missões, contactamos regularmente com muita gente. Estamos em 400 Escolas, temos uma rede colaborativa com várias instituições e fazemos múltiplas ações de capacitação. Temos, por isso, uma perceção afinada de muito do que se passa no terreno. O rasto dos impactos na saúde mental, no pós-covid, é gigantesco e representa um verdadeiro tsunami silencioso. Em especial, nas crianças e jovens, no que diz respeito à ansiedade, burnout, perturbações alimentares, crises de pânico, depressão e suicídio, são múltiplas as situações reportadas.




No site do SNS 24, consideram-se como fatores responsáveis, as medidas de saúde pública para a contenção e controle da pandemia, nomeadamente o distanciamento social, o isolamento, bem como a sensação de medo e incerteza face ao futuro e à evolução da doença, bem como as consequências sócio-económicas da pandemia.


Foi desenvolvido um importante estudo (SM-Covid) e, segundo os seus resultados, verificou-se 37.7% de sofrimento psicológico, 27% de ansiedade moderada ou grave, 26.5% de stress pós-traumático, 26.4% de depressão moderada a grave e 25.2% de burnout.


A nível internacional, a UNICEF alertava, já no final de 2021, que “O impacto é significativo e é apenas a ponta do iceberg. Mesmo antes da pandemia, muitas crianças estavam sobrecarregadas com o peso de problemas de saúde mental não resolvidos. Muito pouco investimento está sendo feito pelos governos para atender a essas necessidades críticas. Não está sendo dada importância suficiente à relação entre a saúde mental e os resultados futuros na vida".


Ainda este documento avançava também propostas de ações que continuam atuais, nomeadamente:

  • Investimento urgente em saúde mental de crianças e adolescentes em todos os setores, não apenas na saúde, para apoiar uma abordagem intersectorial, incluindo toda a sociedade para prevenção, promoção e cuidados.

  • Investir em serviços públicos de qualidade - integração e ampliação de intervenções baseadas em evidências nos setores de saúde, educação e proteção social – incluindo programas parentais que promovem cuidados responsivos e de atenção integral, e garantia de que as escolas apoiem a saúde mental por meio de serviços de qualidade e relacionamentos positivos.

  • Preparar pais, familiares, cuidadores e educadores para abordar o tema da saúde mental como parte da saúde integral.

  • Quebrar do silêncio em torno da saúde mental, fomentar a cultura da escuta sem julgamentos - escuta empática - promovendo uma melhor compreensão da saúde mental e levando a sério as experiências de crianças, adolescentes e jovens.

  • Valorizar a rede de apoio entre pares - promovendo e valorizando esse diálogo entre os próprios adolescentes sobre saúde mental.

Há algum tempo, também a Ordem dos Psicólogos Portugueses, através da sua Vice-Presidente, Sofia Ramalho, trazia-nos uma análise que pode ser bastante útil para esta problemática.



Também este interessante documentário da DW mostra com os jovens lidaram com os desafios do Covid 19.



Apesar destas evidências parece haver uma pesada letargia das nossas instituições na resposta de emergência a este problema muito sério. O País deveria estar em modo “SOS Saúde Mental”, e com todas as luzes vermelhas ligadas. Precisamos de desencadear já respostas muito mais robustas a este tsunami e ter numa ética do cuidado – de si próprio, dos outros e da comunidade – uma linha de inspiração. Cada um/a de nós, onde estiver e com o poder que tem, precisa de dar o seu contributo para que esta resposta se afirme.



Mundo VICA, o que precisamos de recordar


Nas últimas semanas tenho voltado recorrentemente ao modelo do mundo “VICA” (Volatilidade / Incerteza / Complexidade / Ambiguidade). Creio que se tem vindo a confirmar, ano após ano, o acerto da interpretação dos sinais dos tempos, descrito no livro “Leaders. The strategies for taking charge”, de Warren Bennis e Burt Nanus. Mais tarde, nos anos 90, um grupo de estrategas militares norte-americanos disseminou esta chave de interpretação do mundo do nosso tempo.



A escolha destes quatro conceitos chave para nos ajudar a perceber as grandes “placas tectónicas” que se movem todos os dias foi muito ajustada. Mergulhemos, pois, na sua brevíssima abordagem, a que se somam pistas para lidarmos com este tempo.


A primeira palavra é a Volatilidade. Se Bauman nos falava de uma pós-modernidade líquida, hoje estamos já claramente num tempo de realidade gasosa. A mudança constante, uma montanha-russa imprevisível e fronteiras muito fluidas, mostram como tudo se torna mais difícil, no que toca à desejável previsibilidade. Acresce que estes ciclos de mudança se têm encurtado sucessivamente, num ziguezague permanente. Temos defendido que esta condicionante constitui um apelo reforçado à flexibilidade e à adaptabilidade, individual e organizacional, por forma a alcançar uma maior resiliência, entendida como capacidade de adaptação positiva, face a adversidades. Este é um grande desafio para estruturas rígidas e burocráticas, incapazes de ajustarem a tempos voláteis.


A segunda dimensão, que decorre da primeira, é a Incerteza. Torna-se cada vez mais claro que a única certeza que temos é...a incerteza. Não se consegue descortinar o que acontecerá amanhã, o que induz elevados níveis de insegurança. E esta é a antecâmara do medo, que é péssimo conselheiro. Grande parte da turbulência social e política dos últimos anos, tão impactados pela pandemia e pela guerra (ambas imprevisíveis até à sua explosão) decorre deste alinhamento. Para responder a este desafio precisamos de estar capazes de pensar por cenários (e não só o A e o B, mas muito mais), num exercício constante de entendimento das possibilidades, sendo mesmo capazes de esperar o inesperado. Mas, acima de tudo, temos de estar ancorados a valores – nunca foram tão importantes quanto em tempos de tempestade - e as redes de apoio, sejam as nucleares, sejam as secundárias, que nos sustentam e apoiam neste contexto. Também ajudará nesta época a frugalidade, com “bagagens leves”, que nos permitam a flexibilidade e capacidade de adaptação que tanto vamos precisar.


Segue-se neste acrónimo, o C, de Complexidade. Esta decorre do crescente número de interações em sistemas abertos, cujos contornos não conseguimos antecipar e que se caracterizam pela não-linearidade, em que os efeitos podem ser de natureza e dimensão muito diferentes das causas. A complexidade empurra-nos para uma resposta que exige pensamento sistémico e abordagens colaborativas e integradas, que tenham consciência e sejam capazes de agir sobre todo o sistema considerado.


Finalmente, surge a Ambiguidade. Talvez seja a dimensão mais difícil de lidar, sobretudo porque é contraintuitiva. Fomos forma(ta)dos para uma lógica binária, de sim/não, preto/branco,0/1. Seguramente já fomos percebendo ao longo da vida que há um extenso gradiente entre o preto e branco, ou espaços intermédios de talvez. Porém, a ambiguidade obriga-nos a ir mais longe e a chegar à simultaneidade do branco e preto, ou do sim e do não. E isso é de processamento muito difícil. Precisamos por isso de aprender a pensar “E”, num conjuntiva de “sim” e “não” simultâneos, em vez do nosso clássico “ou”. Por outro lado, somos desafiados a uma humildade aprendente, de quem se sabe sempre à procura de, e nunca certos, numa qualquer arrogância infantil, ou cheios de certezas vãs.


Para fazer face a todos estes desafios – VICA – o mais decisivo, porém, é termos claro qual é o nosso sentido e propósito. Quem tem um “porquê”, resolve quase todos os “comos”, dizia Nietzsche. A busca quer do “porquê”, quer do “para quê”, ajudar-nos-á a manter o “norte” e a navegar não importa quais as tempestades que encontremos.


Se quiser saber mais sobre a interpretação do conceito VICA, adaptado à liderança, este site é interessante.



"Monopólio" com regras da vida real


E quando as regras não são iguais para todos? Este vídeo retrata muito bem o desafio de um mundo feito de grandes desigualdades de oportunidades, que nos compete mudar.



A forma como as crianças reagem a tantas regras desiguais, quando ficam aquém dos direitos de outros, neste simples jogo de tabuleiro, desafia-nos. Talvez uma das causas mais mobilizadoras seja poder contribuir para a redução das desigualdades, através da geração de iguais oportunidades para todos. O princípio da equidade é um dos sinais diferenciadores de uma sociedade civilizada.




Laboratoriar: uma necessidade de sempre


Sentirmo-nos desconfortáveis com o que ainda está por resolver. Com os problemas sociais que continuam a cruzar as nossas sociedades e que atentam contra a dignidade humana. Por isso, precisamos de ir à procura de novas soluções para velhos e novos desafios. E para isso, não há como “laboratoriar”. (ler mais)


Apesar de não existir na língua portuguesa, a palavra “laboratoriar” faz todo o sentido. Procurar ativamente novas respostas, através de uma abordagem experimental, centrada na busca de soluções inovadoras estruturadas, constitui um desafio fascinante. Foi sempre assim que a ciência e a tecnologia avançaram e pode também ser assim que, nas áreas sociais, venhamos a conseguir conquistas significativas. O IPAV lançou em Novembro as sementes de dois Laboratórios que procuram percorrer esse caminho.


Em Gaia, com a parceria com a Gaia Urb, empresa municipal de urbanismo e habitação, estamos a construir o Laboratório das Cidades Relacionais. Este é um tema central para o futuro próximo, particularmente depois dos impactos tão significativos, em termos de disrupção relacional, provocados pela pandemia. Para dar resposta a esses desafios, iremos desenvolver um projeto de investigação-ação, de consultoria e de capacitação, multidisciplinar e colaborativo, centrado na geração/gestação de capital relacional, com impacto positivo na resiliência, bem-estar e desenvolvimento sustentável nas cidades, através e com foco nas pessoas. Sabemos que a cidade é uma malha de relações entre pessoas, grupos e instituições, com uma especial conexão à sua geografia, território e paisagens e queremos que o conceito de cidade relacional possa ser explorado e constituir uma nova narrativa explicativa e inspiradora para as cidades do futuro. Os ecos mediáticos multiplicaram-se e a expetativa é alta. Mas os desafios não ficaram por aí.


Em Portalegre, numa parceria com o Inst. Politécnico de Portalegre, a Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo e a CCDR Alentejo, o tema do nosso Laboratório será a Inovação Social. Este conceito chave tem revelado virtudes significativas para encontrar respostas, particularmente a problemas sociais complexos.



Assim, através de dinâmicas de experimentação, de aprendizagem, de partilha de conhecimento, de prototipagem de novas soluções e de replicação de boas práticas de inovação social, procuraremos ajudar a fazer face aos problemas complexos mais relevantes da região. Existem no Alentejo problemas complexos (wicked problems) que são particularmente desafiantes, que atravessam fronteiras de organizações e saberes, para os quais não se conhece ainda uma solução eficaz, e que exigem abordagens integradas e colaborativas. (p.e. Despovoamento, Desequilíbrio demográfico, Gestão da água e Desertificação, Isolamento dos idosos, Abandono e insucesso escolar,...)


Sobre este tema, deixo a sugestão que possa ir até ao RTP Play e veja um dos episódios da série Planeta A, dedicado exatamente a este tema da inovação social. Já agora, os restantes sete episódios também valem a pena.



A aposta em melhores relações para melhor serviço público


No fim do dia, o que conta é a qualidade das relações. Passar do déficit relacional para um forte capital relacional pode inspirar uma nova narrativa para o Serviço público, da qual emerja o “Estado relacional”.



Nos últimos meses, temos tido o privilégio de trabalhar de perto com o IEFP – Instituto de Emprego e Formação Profissional e com o ISS – Instituto de Segurança Social, este novo conceito “Melhores relações para melhor serviço público”. Numa análise multidimensional (Melhores relações com os cidadãos, dentro das equipas, entre departamentos, multinível, com outros departamentos do Estado ou com organizações da sociedade civil) e usando como metodologia a Teoria da Mudança, temos vindo a trilhar caminho em direção a um “Estado Relacional”.


Como nos lembra David Robinson, do Relationships Project, “acreditamos que tudo funciona melhor quando as relações são valorizadas; as pessoas podem ficar mais felizes e mais saudáveis, as organizações e serviços tornam-se mais eficientes e mais eficazes; as comunidades tornam-se mais fortes e mais resilientes. É por isso que trabalhamos com outros para tornar mais fácil para cada pessoa, serviço ou organização colocar as relações no centro do que fazem.”


Uma outra voz muito relevante na defesa desta visão é a de Hillary Cottam. Autora do livro “Radical Help”, defende que “O que precisamos é de um Estado Social verdadeiramente eficaz, que desenvolva a capacidade de ter serviços que sejam construídos na base das relações e que as valorizem. Temos uma realidade em que a solidão ou o isolamento matam. Para encontrar um emprego, por exemplo, o que precisamos é de estar uma rede social, pois 80% dos empregos nunca foram publicitados; o que realmente precisamos é de alguém que esteja ao nosso lado, quando crescemos numa comunidade em que não existe acesso a trabalho digno, ou que se confronta com os problemas da violência, depressão ou ansiedade e tudo o que daí decorre. Chamo a isso "Estado social relacional"”.


Proponho-lhe um Ted Talk, de Hillary Cottam, no qual explica muito bem como as relações fazem toda a diferença.




2023, Ano Nacional dos Professores


Se é verdade que a educação é a arma mais poderosa do mundo, ser professor é a forma mais eficaz de construir um mundo melhor. Importa, por isso, tornar consciente o papel relevantíssimo dos professores e expressar isso com a nossa já conhecida Vitamina G (de Gratidão, claro!).



A Forum Estudante, em parceria com as Escolas Ubuntu e o IPAV, resolveu lançar um desafio para 2023: que seja o Ano Nacional dos Professores. Será uma iniciativa que procurará ativar a capacidade de iniciativa de Escolas, Associações de Pais, Autarquias, Organizações da sociedade civil, para que se unam a este desígnio e proponham atividades e iniciativas, num modelo descentralizado e participativo. Pode encontrar neste site toda a informação e aqui inscrever as iniciativas que a sua instituição quiser organizar para se juntar a esta dinâmica de reconhecimento dos professores.



Sobre esta iniciativa, Filinto Lima, Diretor do Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos e presidente da Associação de Diretores de AE do Ensino Público, deixou o seu testemunho no seu artigo para a TSF.


São muitos os elementos de inspiração que poderemos convocar sobre a diferença que um/a professor/a pode fazer na vida de alguém. Mas nada como ouvir jovens alunos falando dos seus professores.



Já em português, esta recriação do tema “Aquarela”, de Toquinho, por alunos e professores, deixa-nos com um sorriso nos lábios.



Ainda com a música por pano de fundo regresso a um filme que nos mostra a maravilha da relação pedagógica que muda vidas. “Os coristas”, com toda a sua intensidade emocional e beleza estética mostra-nos como um professor pode mudar vidas, ainda que no meio de adversidades e incompreensões. Como tantas vezes acontece, o professor de música, Matthieu, protagonista inspirador desta história, ainda que pareça ser derrotado no curto prazo, deixa uma marca indelével nos seus alunos, mudando vidas, fazendo que alguns vão muito longe e que todos acreditem mais em si próprios, valorizando os talentos e dons que têm.



Ao longo das minhas cartas de 2023 irei trazendo todos os meses peças de inspiração para todos nós, quer enquanto beneficiários do trabalho dos professores que nos marcaram, quer também enquanto (alguns de nós) professores que deixam a sua impressão digital na vida de tantos.



A vida é assim...


Há performances que, sem palavras, nos inspiram, mais além do que conseguiriam as palavras. Esta, mostram-nos, de certa forma, o que é a vida.



Encontrei este vídeo nas minhas derivas infindáveis pela rede. Fiquei fascinado. Sugiro que o veja e possa regressar depois às cinco ideias que me despertaram.



  1. A vida não é sempre a subir...nem em linha reta. Os anos dão-nos essa experiência. A vida é um vaivém, do qual faz parte avançar e recuar. E quando avançamos, fazemo-lo em ziguezague, como dizia Obama, no dia seguinte ao anúncio da vitória de Trump. Não é sempre a subir, nem sempre em linha reta. Por isso, torna-se essencial, saber o “norte” e não o perder nunca, apesar de tudo.

  2. A queda é certa. Ninguém escapará de alguma queda. Maior, menor...muitas, poucas, mas ninguém as evita. Essa realidade é uma excelente oportunidade para cultivar a humildade dos caídos e a simplicidade de quem se sabe falível. Benditas quedas se nos derem essa oportunidade.

  3. Saber cair. No judo, as primeiras lições repetem consecutivamente a queda...para aprender a cair. Enquanto não o souberem não estão prontos para avançar. Não é de somenos importância, transferir a mesma regra para a nossa vida. Tendo como certo que cairemos, importa saber cair, ou seja, evitar danos maiores cada vez que se vai ao chão.

  4. Ter rede que nos ajude a levantar. Só nos levantamos – ou levantar-nos-emos muito mais facilmente – se tivermos uma boa rede (família, amigos, colegas de trabalho, ...). São os outros que nos salvam, amparando, protegendo e dando um impulso para voltar a estar de pé. Cuidar das nossas redes de suporte é, por isso, entre outras coisas, condição de sobrevivência futura.

  5. Nunca perder a esperança de retomar o caminho. É impressionante neste caminho, que o caminhante nunca desista. Cai, e volta a levantar-se, e assim sucessivamente. Nunca desiste. Essa atitude só pode ser baseada numa esperança ativa. Na convicção de que conseguirá, não importa quantas vezes caia. Ouvi, uma vez, que “um santo é um pecador que não desiste de fazer melhor”.


A homenagem ao meu Pai


Este mês, partiu o meu pai. Sendo este espaço um território com assinatura, em que partilho com os subscritores a minha visão sobre o mundo, procurando cuidar de laços que se foram construindo, quero partilhar convosco a memória sobre quem (também) me permitiu ser quem sou.



“Recordo-me perfeitamente. Seria próximo do Natal e para uma criança de 5 anos só podia ser uma experiência estranha. Pela mão do meu pai, entrava numa prisão, para o acompanhar na sua visita aos presos na Cadeia Municipal de Mafra. Com um bolo feito pela minha mãe, via-o levar luz e uma réstia de esperança aquele sítio escuro. Pode ser que aí tenha nascido tudo o que o meu pai me inspirou para uma cultura solidária e de serviço ao Outro. Nunca mais saiu de mim esse momento de testemunho e de incentivo.


Da sua vida longa guardo sobretudo esse traço constante. O meu pai sempre foi um apaixonado pelo serviço. Algumas vezes, até pagou uma fatura elevada por isso. Ainda em Mafra, recordo o momento duro do injusto despedimento correlacionado com o voluntariado que fazia, ajudando outros trabalhadores da mesma empresa a preparam-se para o exame da 4ª classe e assim poderem progredir na sua carreira. Mas foi nos mais de trinta anos de voluntariado no Instituto Português de Oncologia que o vi realizar-se plenamente nessa vocação. Infalivelmente, todas as semanas aí ia, para escutar e consolar, para dar o jantar ou acompanhar nos últimos momentos os doentes oncológicos.


Coordenou grupos, mobilizou outros para o mesmo serviço e foi incansável nesse serviço de voluntariado. E quando era desejo do doente que visitava, falava-lhe entusiasticamente do Amor infinito de Deus. Da vida para além da dor do momento. Do sentido que a fé dava a todos os momentos, numa presença divina que nunca falharia.


Esse é seguramente outro traço forte da sua vida: a fé e o amor à Igreja. Foi catequista e ensinou-nos a rezar. Foi ministro extraordinário da comunhão e serviu o altar com toda a dignidade. Claro, tinha uma maneira muito própria de viver a sua fé. Talvez influenciado pelo sopro do padroeiro dos pescadores, São Pedro, não raras vezes estava pronto a desembainhar a espada, ou a deixar vir ao de cima a sua irascibilidade. Mas, como Pedro, regressava suavemente ao Mestre, pedindo perdão dos seus excessos e dos seus pecados. Como o primeiro dos Apóstolos, tinha um coração enorme. Quando rezava em público, fazia-o com voz forte e, se era para cantar, usava toda a força da sua voz. Nunca foi de meias medidas e Deus só merecia tudo de si. A sua fé tinha também por Nossa Senhora uma devoção total e por Fátima uma quase obsessão. Até ao fim, rezava o terço todos os dias, (na verdade, duas vezes por dia) e morreu com uma dezena nas suas mãos que uma das suas queridas netas lhe entregou nesta reta final.


A vida não lhe foi fácil. Nascido em Sesimbra, tendo como berço uma pobreza humilde, cresceu numa família dependente da incerta generosidade do mar, marcada pela devastação da tuberculose e pela escassez de quase tudo. A partir dessa realidade, que nunca rejeitou, foi capaz de ir além. De se levantar e procurar novos horizontes. De enfrentar o mundo, sem proteção e sem “padrinhos”. Da penúria, fez-se trabalhador incansável e, já em Lisboa, começou o seu caminho de busca de uma vida digna. Esse é outro ensinamento do meu pai. Foi um trabalhador insano, e conjuntamente com a minha mãe, a sua querida companheira de sessenta anos, foram capazes de construir outro referencial de vida, de que fomos beneficiários. Deixou-nos uma ética do trabalho, uma dedicação total ao que somos chamados a fazer e uma exigência de profissionalismo a toda a prova. Tinha em si esta ânsia da perfeição que lhe dava uma exigência total e, por vezes, excessiva. Guardo, da sua experiência enquanto trabalhador, também os anos em que me ajudou a construir a Forum ou em que serviu na CAIS. Sempre ao meu lado, para o que fosse preciso, claro.


Foram só luzes? Não. Como plenamente humano, errou também, em algumas curvas da vida. Sofria profundamente com esses erros e com a humilhação pública que lhe causavam. Mas também aí, foi encontrando a face do seu Deus misericordioso, que sempre o incentivava a voltar a tentar o caminho da bondade e sentir-se incondicionalmente amado. Espero que tenha sido isso que levou consigo nesta sua partida. A família que, nos últimos dias, se foi reunindo à sua volta, nunca o deixando sentir-se sozinho. O carinho da minha mãe, sempre presente. E a presença dos sacramentos da Igreja para o consolar.


Hoje, dia em que nos despedimos dele, escolho recordar-me da sua alegria – e como gostava de rir! – e do que gostava de reunir toda a família à volta da mesa, nos almoços ou jantares que preparavam (a mãe e o pai) com tanto gosto. Celebremos, pois, a sua vida. É tempo de dar graças a Deus pelo pai que tive.


(16.11.1937 - 6.11.2022)



Stefano Mancuso, um nome a reter/rever

Sei pouco sobre o mundo da botânica. Talvez também por isso me tenha surpreendido com a obra de Stefano Mancuso, sobre o que nos traz sobre a “sabedoria” das plantas e como são muito mais relevantes do que tantas vezes consideramos.



Mancuso é especialista em neurobiologia vegetal e professor na Universidade de Florença, onde dirige o Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal. Tem tido uma profícua produção literária que importa conhecer, sendo considerado pela New Yorker, um “world changer” da década. O seu trabalho insere-se numa área do conhecimento que se tem desenvolvido desde o início da década de 90, na qual se procura compreender formas de comunicação e de inteligência das plantas.


Deixo-vos a referência de algumas das suas obras principais, o link para algumas das suas intervenções e uma entrevista sua à Visão.


A revolução das Plantas: Este livro foca a nossa atenção nas aprendizagens que poderemos fazer com o mundo vegetal, nomeadamente as suas características como o consumo de energia muito baixo, uma arquitetura modular, uma inteligência distribuída e a ausência de um centro de comando orgânico.


A planta do mundo: Este livro lembra-nos que “a terra é um mundo verde; é o planeta das plantas. As plantas constituem um sistema nevrálgico ou um mapa - uma «planta» sobre a qual se escreve o mundo humano. Este livro relata histórias de plantas que, entrelaçando-se com a história humana, se juntam para formar a grande narrativa da vida na Terra. Que papel tiveram as árvores na Revolução Francesa ou na Astronomia? Porque é que as árvores num bosque cooperam em vez de competir? Que relação têm as árvores com a música? Como é que a madeira foi usada para resolver alguns dos crimes mais famosos? Quais foram as primeiras plantas a viajar no espaço? Estas e outras perguntas são levantadas e respondidas através das histórias deste livro, que vai certamente transformar a forma como vê a paisagem ao seu redor.” (in Wook)


Para quem preferir um primeiro contacto com a descrição do autor sobre “A planta do mundo”, aqui fica a sugestão:



Tem também a oportunidade de escutar este Ted Talk, sobre “A raiz da inteligência das plantas”:




Tempo e vontade


Vem constantemente à conversa a nossa falta de tempo. Não há quem não se queixe à exaustão do tempo que não tem. Há alguma coisa a fazer?



Este é um tema recorrente. Em tudo o que vou fazendo cruzo-me sempre com a inevitável falta de tempo. Creio que vale a pena levar a sério este desconforto e fazer alguma coisa para o minimizar.


Nunca mais me esqueci do que me disseram uma vez, deixando-me meio perplexo, a propósito da minha “falta de tempo”: "tens tempo para tudo o que queres. Só te falta querer ter tempo para o resto”. Por isso, quando encontrei este alerta sobre a confusão de falta de tempo com falta de vontade, relembrei-me o que havia ouvido.


Em certa medida, estamos reféns da dinâmica trucidante de quem corre numa roda. Quanto mais corremos, mais temos de correr, num efeito perverso sem fim, até ao dia em que nos libertemos desta espiral que nos enlouquece. Tal como acontece com a roda é o nosso ritmo que determinará, em certa medida, a aceleração (ou não) da velocidade da roda. Havemos um dia de perceber que o bem mais escasso será sempre o tempo e que o verdadeiro privilégio é conseguir ter tempo para tudo o que é importante para nós.


Encontrei também esta história que nos inspira a saber usar o tempo com sabedoria, com os critérios certos e, surpreendentemente, percebermos até podemos ter tempo para (quase) tudo...




Agenda


Vidas Ubuntu: Sam Jalloh


A 10 de dezembro, a Ubuntu Global Network volta a reunir-se. Através de uma iniciativa Ubuntu Lives, os participantes vão conhecer a vida de Sam Jalloh, um jogador de ténis e sobrevivente da guerra civil na Serra Leoa. Durante a sessão online, Sam vai partilhar com os presentes os obstáculos que foi enfrentando e a forma como hoje se vê no mundo, enquanto líder servidor.


A sessão começa ao meio dia e pode participar através deste link.


VIIª Conferência Internacional sobre Colaboração e Governação Integrada


No dia 12 de dezembro, a Fundação Calouste Gulbenkian vai ser palco da VIIª Conferência Internacional sobre Colaboração e Governação Integrada dedicada d ao tema "Melhores Relações, para Melhor Serviço Público".


Já marcou a data na sua agenda?


Inscrições aqui.


No horizonte próximo fica já o Natal. Deixo-vos o desafio do silêncio interior para que seja um tempo de serenidade, ao invés do bulício que, tantas vezes, nos desfoca do essencial. E quanto a presentes? Sempre preferi o “tornar-se presente”. Com o tempo e a atenção que cada um/a à nossa volta merece. Esse será o Bom Natal que todos ambicionamos.



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