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  • Writer's pictureRui Marques

O P. António Vieira e o mito do Quinto Império

Revisitação e actualidade





  1. Introdução



O Pe. António Vieira é uma referência da humanidade. Polifacetado e desconcertante, foi missionário, político, diplomata, orador e intelectual, num século conturbado e inquietante.


Homem de Fé, que abraçou a tempo inteiro na Companhia de Jesus, notablizou-se pelos seus monumentais sermões, mas também pela missão exemplar de dedicação aos índios do Brasil. Para eles conseguiu, contra fúria dos colonos, em 1655, um decreto do rei que os protegia contra a escravidão feroz. Quando poucos viam nos índios sequer seres humanos, Vieira esteve a seu lado, aprendendo as suas línguas, correndo perigos inimagináveis nas selvas profundas do Maranhão.


Intensamente empenhado no destino da sua Pátria - para a qual sonhou a utopia do Quinto Império - foi pragmático na política e controverso na diplomacia, mas acabou sempre à margem do politicamente correcto. Desafiou o futuro e, procurando perscrutar os seus caminhos, imaginou novos mundos. Enfrentou por isso, inimigos infindáveis, entre os quais, todos os poderes instituídos: a Corte, a Inquisição e os interesses económicos. Estando no mundo, Vieira não era daquele mundo.


Também para a cultura portuguesa a sua memória ressoa como um dos nossos maiores expoentes. Exímio arquitecto das palavras e dos conceitos, orador distinto, por quem valia a pena “ir por tapete a S. Roque”, Vieira deixou-nos um espólio impressionante. Pessoa chamou-lhe, mais tarde, e sabia do que falava, o Imperador da Língua Portuguesa e poderíamos somar-lhe o título de profeta da alma lusitana.


Polémico, como poucos, António Vieira não era um ser perfeito, e até nisso, era profundamente humano. Não ficou como uma lenda, nem sequer como um santo. Sonhou sonhos impossíveis, viu miragens que se esfumaram e errou muitas das suas geniais suposições. Mas nunca teve medo, nem se ficou no conforto dos moles. Foi ousado, corajoso e fiel à sua consciência, por mais que isso implicasse ir contra o Mundo.


A abordagem que faremos ao longo deste brevíssimo ensaio leva-nos a revisitar o mito do Quinto Império de Vieira e a testar a necessidade de o actualizar para o IIIº Milénio, enquanto alavanca de esperança de um povo.




  1. Tempos de crise, berço de mitos


Nascido em 1608, em Lisboa, Vieira conhece a sua Pátria num contexto de profunda crise. Com o desastre de Alcácer-Quibir, onde em 1578 morrera o Rei D. Sebastião, Portugal ficara sem descendentes e vulnerável à anexação por Espanha, que acontece em 1580. Entre mortes e resgastes, o País ficou destroçado e, longe dos tempos de euforia dos Descobrimentos, entrava no seu período mais negro.


Mas, alguns anos depois, a resistência à anexação vai começando a ganhar forma. Desenvolve-se estão o mito – o sebastianismo - de que D. Sebastião não teria morrido em Alcácer-Quibir e que regressaria numa manhã de nevoeiro. Como sublinha J. Francisco Marques, “o fosso de descontentamento entre os portugueses, à medida que a situação piorava no reino e nas conquistas, animavam-lhes a ânsia de libertação. Pululavam juizos astrológicos e vatícinios fatalistas, alimentados por sinais celestes e cataclismos naturais. Prognosticava-se, a par do regresso de D. Sebastião, o regresso não já em pessoa do vencido de Alcácer-Quibir, mas alguém da sua raça[1]


F. Taveira da Fonseca, da Universidade de Coimbra, desenvolve, em artigo publicado na revista Brotéria[2] uma análise sobre esta realidade onde sublinha que “é legitímo, antes de mais, pensar que o sentimento anti-castelhano que o medo de um vizinho mais poderoso acicatava pudesse transmutar-se, sob o domínio efectivo de um poder estranho em esperança de redenção e de libertação que o sebastianismo foi a expressão mais evidente: tanto como uma forma particular de oposição – conseguindo concitar mobilizações à volta dos personagens que, em dado momento, apareciam a querer materializar esta esperança – o sebastianismo pode ser encarado como o fermento de todas as oposições[3]


Mas são grandes os obstáculos na concretização do desígnio da Restauração. A depressão pós-Alcácer-Quibir e a força dos ocupantes tornam-no quase impossível. Como apoio à tese da Restauração são relidas e difundidas as Trovas de Bandarra, sapateiro de Trancoso, escritas algumas décadas antes e publicadas pela primeira vez em 1603.


Quando, em 1640, acontece a Restauração da Independência, é natural que muitos lhe atribuam contornos de milagre. E de realização das profecias de Bandarra, bem como de desfecho inesperado do mito do Sebastianismo, que tinha agora em D. João IV, o novo “Encoberto”.


Vieira vive esta época, que corresponde aos seus primeiros 32 anos de sua vida, em Portugal e no Brasil, para onde parte em 1614. Estes tempos de juventude, correspondem a momentos estruturantes de formação na Companhia de Jesus, na qual entra em 1623, formação cuja solidez se vai revelando ao longo dos anos.


Neste ambiente social, marcado pelo referido “caldo” cultural onde pontuam o desejo de libertação da ocupação estrangeira e o de restauração da independência, Vieira enfrenta também a permanente ameaça dos Holandeses à presença dos portugueses no Brasil que lhe proporciona uma intervenção notável por via dos seus Sermões, do quais se destaca o quase herético “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda”.


E se bem Vieira pregava contra os holandeses, melhor o fazia pela causa da Restauração.


Como poucos, sabia usar a palavra como arma. Por isso J. F. Marques sublinha que “esta actividade paranética, para que as circunstâncias o atiraram era na altura o mais credenciado instrumento de alcance sociológico ímpar por capaz de atingir um público diferenciado e em sua esmagadora maioria analfabeto. Veiculando um providencialismo de teor messiânico, insiste neste sermoária, circunstancialmente intervencionista, no complexo de culpa colectiva ante as desgraças presentes. À semelhança do profetismo judaico ao tempo do cativeiro da Babilónia, mantinha a chama da esperança..”[4]. Umas das evidências interessantes desta expressão é o Sermão pregado em 1634, na Baia e que roda sempre à volta de um equivoco: Sebastião, o Encoberto.


Mas a profunda crise que Portugal vivia à época não se poderia resolver de um dia para outro. A independência reconquistada necessitava ser consolidada todos os dias. Em termos económicos desde logo, mas também no domínio do simbólico: “e porque a restauração da liberdade política não colocou termo aos trabalhos e às dificuldades, não se esgotou o seu (do sebastianismo) papel profético[5]


António Vieira, que ruma à metrópole em 1641, liderando uma delegação da província do Brasil que vem reconhecer o novo monarca, percepciona esse novo desafio e assume essa missão, em diferentes roupagens.


Os sinais não eram, então, animadores, o que leva Vieira, em 1643, a escrever:


“O Reino de Portugal, Senhor, não melhorando do estado em que de presente o vemos, tem muito duvidosa a sua conservação, porque, ou a consideremos fundada no poder próprio ou alheio, um e outro estão prometendo pouca firmeza”[6]

Este novo combate, fê-lo o jesuita com todo o empenho, procurando com grande sageza, recuperar para Portugal, o capital de judeus e cristãos-novos que haviam sido expulsos do Reino. Mas mais importante, no contexto deste ensaio, foi o seu empenho, no púlpito e na pena, na construção de um capital simbólico de esperança que actualizasse o sebastianismo, agora já não focado no regresso do Rei perdido, mas na construção de um desígnio nacional, alicerçado numa promessa divina.


Aqui estará, provavelmente, a raiz das obras – Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, História do Futuro e Chave dos Profetas – que, duas décadas mais tarde, vão dar corpo ao mito do Quinto Império. Destas, escolheremos as duas primeiras, por serem as mais relevantes na estruturação deste análise.



3. Os fundamentos do Quinto Império


Em termos simples, o Quinto Império é o anúncio do império consumado de Cristo na Terra, com dois vigários: um para o poder espiritual – o Papa – e outro para o poder temporal – o Rei de Portugal. Quinto, porque se sucede no tempo aos quatro impérios anteriores – assírio, persa, grego e romano – e coincide com a “plenitude dos tempos”.


Embora alguns investigadores, como o Pe. António Lopes SJ[7], considerem que a elaboração sobre o Quinto Império se inicia muito precocemente na reflexão de Vieira e apesar da “História do Futuro” ter começado a ser escrita em 1649, o certo é que a sua primeira expressão clara surge com a Carta Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo”, enviada do Brasil, em 29 de Abril de 1659, ao Bispo do Japão, D. André Fernandes, SJ.


Aí de uma forma sistemática, o jesuita tenta provar o seguinte silogismo:


“O Bandarra é um verdadeiro profeta; o Bandarra profetizou que El-Rei D. João, o quarto há-de obrar muitas cousas que ainda não obrou, nem pode obrar senão ressuscitando; logo El-Rei D. João o quarto vai ressuscitar.”[8]

Como é evidente, Bandarra é o fio condutor que Vieira usa para desfilar as “razões” do seu Quinto Império. Aquele surge como profeta paralelo aos dos Antigo Testamento e as suas Trovas, divididas em três partes – Sonhos - que haviam sido esteio da fé sebastianista, transformam-se em inspiração do Quinto Império.


Ao longo desta Carta, que tendo sido inteceptada e violada no seu trajecto para Lisboa, chegou às mãos da Inquisição, iniciando aí o calvário que Vieira percorre na Mesa do Santo Ofício, o autor organiza a interpretação de Bandarra em duas partes:


“Todos os sucessos prometidos a esse rei divide Bandarra em duas partes principais: a primeira contém os sucessos da aclamação em Portugal; a segunda contém os sucessos da conquista do Turco e da Terra Santa”[9]

Ao partir para esta reflexão, sobre o futuro relido em Bandarra, Vieira deparava-se com o facto incontornável de D. João IV estar morto, o que liquidaria a tese para mentes comuns. Mas a ele nada o demove:


“Com que fica evidentemente mostrado e demonstrado que o Senhor Rei D. João o IV, que está na sepultura, é o Rei fatal de que em todas suas profecias fala Bandarra, assim nas que já se cumpriram, como nas que estão ainda por suceder. E se este mesmo Rei D. João está hoje morto e sepultado, não é só amor e saudade, senão razão, obrigação e entendimento crer e esperar que há-de ressuscitar. O contrário seria sermos néscios e estólidos, como Santo Agostinho chama aos que, tendo visto cumprida uma parte das profecias, não crêem na outra.”[10]

Como se percebe, no raciocínio de Vieira a correlação é linear – como já o era no silogismo enunciado – se “a verdadeira prova do espírito profético nos homens é o sucesso das cousas profetizadas[11] então não há que duvidar do que está profetizado e ainda não concretizado, porque muitas outras coisas que estavam profetizadas já se cumpriram.


Vieira vê mesmo na ressurreição de D. João IV um sinal de Deus que ajudaria à missão de reunir todos os reinos numa só coroa:


“Ressuscitará sem dúvida El Rei D. João, e a sua ressurreição será o meio mais fácil de conciliar o respeito e a obediência de todas as nações de Europa, que o hão-de seguir e militar debaixo de suas bandeiras nesta empresa, o que de modo nenhum fariam sendo tão orgulhosas e altivas, se não fossem obrigadas deste sinal do Céu, entendendo todas que não obedecem a um rei de Portugal senão a um capitão de Deus”

Mas ainda mais espantoso, como nota Hernâni Cidade, é que “depois da audácia de assim o concluir, a audácia de por meio dum prelado comunicar à Rainha e a audácia, muito maior, de o defender perante a Inquisição. Acima das possibilidades que no plano real a experiência humana delimitava, pairavam as certezas que a sua crença fundamentava nas promessas que julgava divinas[12]


O desenho final a que Vieira chega, na disposição das várias peças no cenário imaginário do Quinto Império, é descrito com bastante detalhe por forma a tornar credível o que, crê, irá acontecer nos anos seguintes:


“No efeito dos sucessos é certo e certíssimo que não me engano; no computo do tempo, de que não tenho tanta segurança, também presumo que não me hei-de enganar. E se assim for, aparelhe-se o mundo para ver nestes dez anos fatais uma representação dos casos maiores e mais prodigiosos que desde o seu princípio até hoje tem visto. Em Espanha verá o Rei de Portugal ressuscitado e Castela vencida e dominada pelos Portugueses. Em Itália verá o Turco barbaramente vitorioso, e depois desbaratado e posto em fugida. Em Europa verá universal suspensão de armas entre todos os Príncipes cristãos, católicos e não católicos; verá ferver o mar e a terra em exércitos e em armadas contra o inimigo comum. Na Ásia e na Africa, e em parte da mesma Europa, verá o Império Otomano acabado, e El Rei de Portugal adorado Imperador de Constantinopla. Finalmente, com assombro de todas as gentes verá aparecidos de repente as dez tribos de Israel, que há mais de dois mil anos desapareceram, reconhecendo por seu Deus e seu senhor a Jesus Cristo, em cuja morte não tiveram parte”[13]

É evidente que as ousadias de Vieira despertaram consequências funestas. Desde logo, a censura de Roma e, mais tarde, o processo da Inquisição. Ponto por ponto, a resposta de Roma tenta destruir as preposições do Quinto Império.


“A 1ª - a que afirma a futura existência de um Quinto Império – consideram-na estranha ao consenso geral dos Católicos, que tomam o tal império como o do Anti-Cristo. É também errónea e ofensiva dos ouvidos piedosos e com sabor a heresia a 2ª proposição segundo a qual o Império Romano – o 4º do Mundo, em sucessão cronológica, considerado como ainda existente na Casa de Austria – seria destituido pelo Quinto Império. Censura-se como escandalosa, temerária e ofensiva de ouvidos piedosos e com sabor a heresia a 3ª proposição, que atribui espírito profético ao Bandarra; e também é a 4ª temerária e fátua, porque lhe interpreta as Trovas como verificadas nos sucessos livres e contingentes. A 5º proposição, que considera não só como demonstrável pelo discurso, senão também como derivada da própria Fé, a verdade das profecias do Bandarra, não é apenas errónea: tem sabor a heresia. Temerária a 6ª, que afirma futura ressurreição de D. João IV. Igualmente temerária e ainda ofensiva dos ouvidos piedosos a 7ª, que tem como critério de reconhecimento d espírito profético, independentemente da verdade da doutrina. E é errónea, injuriosa para os Santos Padres, para a Sagrada Família e para a Igreja a 8ª proposição, que confere ao Imperador do Quinto Império a graça da convulsão universal de Judeus, Gentios e hereges, como não menos injuriosa para a Igreja e sacrílega a 9ª, que promete a incorporação na Igreja das doze tribos desaparecidas.”[14]

É interessante notar que se cruzam aqui duas leituras assíncronas. Enquanto Roma não vê mais do que argumentos teológicos fantasiosos – e perigosos – que se apressa a desmentir, entre os quais a futura ressurreição de D.João IV e a conversão dos Judeus e Gentios, para Vieira estes argumentos são instrumentais ao fim mobilizador que o move: construir um desígnio que levasse os portugueses a acreditarem deter uma Missão no Mundo, e através dessa convicção fortalecer a sua vontade e esclarecer a sua inteligência.


O Quinto Império pretende ser, por isso, uma alavanca da esperança dos portugueses. Acreditarem que são pré-destinados para grandes coisas ajudá-los-ia a terem suficiente auto-confiança para consolidarem a restauração da independência que obtiveram. A História do Futuro, nas suas primeiras páginas, evidencia, de uma forma cristalina, este objectivo:


“a melhor parte dos venturosos futuros que se esperam, e a mais gloriosa deles, será não só própria da Nação portuguesa, senão única e singularmente sua. Portugal será o assunto, Portugal o centro, Portugal o teatro, Portugal o princípio e fim destas maravilhas; e os instrumentos prodigiosos delas, os Portugueses(...).
(..)Portentosas foram antigamente aquelas façanhas, ó Portugueses, com que descobristes novos mares e novas terras, e destes a conhecer o Mundo ao mesmo Mundo. Assim como líeis então aquelas vossas histórias, lede agora esta minha, que também é toda vossa. Vós descobristes ao Mundo o que ele era, e eu vos descubro a vós o que haveis de ser. Em nada é segundo e menor este meu descobrimento, senão maior em tudo. Maior cabo, maior esperança, maior império.” [15]

Note-se que Vieira sublinha na sua interpretação da história que as vitórias passadas se enraizam na confiança em profecias antigas, protagonizadas pelo primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques. Esta referência a um mito contemporâneo da fundação da nacionalidade, que tal como o Quinto Império, augura grandes futuros para uma pequena nação, tem na História do Futuro referências importantes:


“Antes do nascimento de Portugal, apareceu o mesmo Cristo a El-Rei (que ainda não o era) D. Afonso Henriques, e lhe revelou como era servido de o fazer rei, e a Portugal, reino; a vitória que lhe havia de dar em batalha tão duvidosa e as armas de tanta glória com que queria singularizar entre todos os reinos do mundo. E o embaixador e interprete desse e de outros futuros, que depois se viram cumpridos, foi aquele velho, desconhecido e retirado do mundo, o ermitão do campo de Ourique”[16]

Evidentemente que Vieira se revê no ermitão de Ourique e transfere para as suas profecias do Quinto Império este papel de alavanca de feitos futuros. Para ganhar força para a sua causa, sublinha que foi pela confiança nessas profecias que Portugal fez grandes coisas, pelo que a repetição de grandes feitos exige a mesma fé em novas profecias:


“Mas não obraram todas estas proezas (os descobrimentos) aqueles portugueses famosos por benefício só de seu valor, senão pela confiança e seguro de suas profecias. Sabiam que tinha Cristo prometido a seu primeiro rei que os escolhera para argonautas apostólicos de seu Evangelho e para levarem seu nome e fundarem seu império entre gentes remotas e não conhecidas; e esta fé os animava nos trabalhos; esta confiança os sustentava nos perigos; esta luz de futuro era o norte que os guiava; e esta esperança a âncora e amarra firme, que nas mais desfeitas tempestades os tinha seguros”[17]

Esta referência à fortaleza em tempos de crise, aplica-se também ao próprio Vieira. Esta segunda obra – “História do Futuro” - estruturante do Quinto Império, foi, em grande parte, escrita durante o tempo que esteve sobre o jugo da Inquisição, entre 16 de Fevereiro de 1663 e 23 de Dezembro de 1667. É bem revelador da tempêra deste Homem, não só o facto de não se atemorizar por ter caído nas malhas da Inquisição, bem como de preparar e executar a sua defesa perante a Mesa e, ainda, durante esse tempo escalar no refinamento das suas teses, através de uma nova obra.


Na sua defesa perante a Inquisição, Vieira sinaliza que, desta feita, o confronto não se deve exclusivamente a questões teológicas, como acontecia com as censuras de Roma:


“(...) 2ª Porque no dito papel se prova ou pretende provar, não só o estabelecimento do Reino e Coroa de Portugal, senão os aumentos e felicidades dele, e haver de ser império universal, que do mesmo modo é matéria odiosa a todas as nações estrangeiras, e particularmente aos ditos ministros, dos quais se tem conhecido, em espaço de vinte e cinco anos, quão pouco afectos e inclinados são ao estabelecimento e conservação dos Príncipes e Coroa de Portugal, quanto mais a tão extraordinária grandeza, como a que no dito papel se lhe promete.
3ª Porque no dito papel se infere a ruína de Castela e haver de ser vencida e dominada pelas armas portuguesas, que é outra maior razão para haver de ser odioso aos mesmos ministros, os quais são tão conhecidamente favorecedores da parcialidade de Castela e tão obrigados a ela, e mais castelhanos no afecto que os mesmos Castelhanos. E tanto é mais forçosa esta razão, quanto lhe consta a ele, suplicante, e o provará se necessário, que o dito papel passou a Castela e que pessoas de grande autoridade e letras, entre as quais o Bispo de Tuy, julgaram que provava e persuadia o intento, e que como tal se devia procurar que fosse proíbido, assim para que os Portugueses se não animassem a preserverar no que eles chamam rebelião, como também para que os Castelhanos não cressem nas nossas chamadas felicidades por ele.”[18]

Neste excerto da sua defesa, de uma forma ousada como era seu timbre, Vieira acusa a Inquisição de, através do processo que lhe move, ser instrumento de Castela contra os interesses da independência nacional. É uma outra expressão do verdadeiro combate que se trava á volta do Quinto Império. Este processo inicia-se com a queda em desgraça de Vieira na Corte, a que se sucede um ataque da Inquisição, sustentado no conteúdo da carta “Esperanças de Portugal..” e só termina verdadeiramente quando a roda da fortuna vira outra vez. Mas desse tempo fica a condenação de não poder falar ou escrever, mordaça essa que o intrépido Vieira contesta. Dirige-se então a Roma onde obtém do Papa a revogação da pena e a futura protecção papal de qualquer nova investida da Inquisição.


Reforçado no seu caminho, vai através da “História do Futuro”, obra inacabada, retomar o mito do Quinto Império. Construída em linha com a carta “Esperanças de Portugal..” vai, agora, mais longe. Jogando no terreno da leitura do futuro, contrasta esta História com todas as outras:


“Nenhuma cousa se pode prometer à natureza humana mais conforme ao seu maior apetite, nem superior a toda a sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros; e isto é o que se oferece a Portugal, à Europa e ao Mundo esta nova e nunca vista história. As outras histórias contam as cousas passadas, esta promete dizer as que estão por vir; as outras trazem à memória aqueles sucessos públicos que viu o Mundo; esta intenta manifestar ao Mundo aqueles segredos ocultos e escurissímos que não chega a penetrar o entedimento.”[19]

Mas quando se fala de promessas futuras, os cépticos esgrimem o argumento previsível: mas quando será? e desmobilizar-se-iam perante longinqua expectativa. Ora Vieira, atento a este risco, anuncia que a realização do Quinto Império está para breve, tão breve que ele próprio o viverá:


“Que vida haverá em Portugal tão cansada, que idade tão decrépita, que à vista do cumprimento destas esperanças, não torne atrás os anos para lograr tanto bem? Vivei, vivei, Portugueses, vós os que mereceis viver neste venturoso século. Esperai no Autor de tão estranhas promessas, que quem vos deu as esperanças, vos mostrará o cumprimento delas”

É importante recuperar que se depositavam grandes esperanças no ano 1666, quanto a acontecimentos extraordinários. Argumentava-se, então, sobre o significado misterioso da numeração romana com que se representa 1666. Ela tem ainda a particularidade de ser indicada com todos os caracteres, e em ordem decrescente: MDCLXVI , sendo na sua terminação – 66 – o dobro da idade com que Cristo começou a pregar o seu Evangelho. Esta esperança é evidenciada, por exemplo, no seguinte excerto:


“Tenho para mim que dentro da era de sessenta se há-de representar no teatro do mundo toda esta grande tragicomédia. Fundo-me em cinco textos de Bandarra, três muito claros e dous mais escuros, mas muito notáveis”[20]

Mas a convicção - mesmo obstinação - de António Vieira no exercício da sua missão eram tais que a não concretização de nada de extraordinário nessa data também não o afectou, de tal forma que até à data da sua morte, em 1697, se manteve convicto da certeza do Quinto Império.


Na realidade, mais importante do que assistir à realização das profecias do Quinto Império era acreditar nelas e, em consequência, ir construindo as bases do Império consumado de Cristo no Mundo, onde “todos os reinos se unirão em um ceptro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça, todas as coroas rematarão em um só diadema, e esta será a peanha da cruz de Cristo”[21]. Mas entretanto, Vieira pede que se resista e para tal atribui uma particular utilidade à sua História:

“A segunda utilidade desta História, e a mais necessária aos tempos próximos e presentes, é a paciência, constância e consolação nos trabalhos, perigos e calamidades com que há-de ser aflito e purificado o Mundo, antes que chegue a esperada felicidade”[22]

Um outro aspecto notável de toda a obra de Vieira, mas particularmente destas peças, é a cultura e erudição que revelam, em paralelo com um enorme sentido pedagógico e metódico. A organização que apresenta da obra é disso evidência:

“Divide-se a História do Futuro em sete partes ou livros: no primeiro se mostra que há-de haver no Mundo um novo império; no segundo, que império há-de ser; no terceiro, sua grandezas e felicidades; no quarto, os meios por que se há-de introduzir; no quinto, em que terra,; no sexto, em que tempo; no sétimo, em que pessoa. Estas sete cousas são as que há-de examinar, resolver e provar a nova História que escrevemos do Quinto Império do Mundo.”[23]

Vai longo o desfiar de argumentos e citações que tentam evidenciam que o Quinto Império ocupou um papel central no imaginário colectivo de um país em crise, quer nos tempos da ocupação, quer nos primeiros anos após a restauração. Interessante é reter ainda, do Capítulo VII, da História do Futuro, a última utilidade, agora dirigida a outro destinário, que não o povo português:


“Oh quantos danos, quantas despesas, quantos trabalhos, quanto sangue e perda de vidas, quantas lágrimas e opressão de naturais e estrangeiros podia escusar Espanha, se, com os olhos limpos de toda a paixão e afecto, quisesse ler esta História do Futuro(..)
Veja e saiba Castela o que Deus tem prometido a Portugal, e logo advertirá a vaidade do que suas esperanças lhe prometem. Oh quantas guerras, oh quanto sangue, ou quantos tesouros baldados poderiam poupar os reis, se no meio de seus conselhos pudessem pôr um espelho em que se vissem os futuros! Tal é este livro, ó Espanha, que também a ti te dedico e ofereço. Aqui verás os futuros de Portugal e tudo o que podes esperar dele em sua conquista”[24]

Esta dedicatória a Espanha, que poderia parecer cínica, completa o arco explicativo das motivações que impulsionaram António Vieira para a construção do Quinto Império: Pela sua Pátria e com a sua Fé, para consolidação de um desígnio nacional que nos permitisse continuar a ser independentes, evitando, por um lado, os riscos de hegemonia e integração no grande país vizinho e, por outro, a tentação da mediocridade sem aspiração ao “mais e melhor”.



4. Quinto Império: um Mito?

Refere-se frequentemente o Quinto Império como um mito, em linha contínua com um outro que o antecede e acompanha – o sebastianismo. Importa, no entanto, fazer um breve incursão na definição de mito e verificar a consistência da classificação do Quinto Império enquanto mito.


Mas, afinal, de que falamos, quando falamos de “Mito”?


Dele, Fernando Pessoa disse que é “O tudo que é nada”. Não haverá, porventura, definição mais curta e exacta de um fenomeno complexo que foge ao enclausuramento dos conceitos.


Seguindo o roteiro proposto pelo Pe. Manuel Antunes, na Enciclopédia Luso-Brasileira, fixa-se a seguinte definição: “mito é a projecção reactiva no espaço social da linguagem e de outras formas sensíveis de visões fantásticas, de desejos, de temores, de explicações do universo e da vida, a um primeiro nível, directo e imediato, de um modo de apreensão do real e da religação com o mesmo real sem a mediação rigorosamente consciente da filosofia, da ciência ou da teologia [25].


Etimologicamente estamos perante uma questão difícil, pois não há um consenso sobre a sua origem. “Para a raiz do vocábulo três soluções principais têm sido propostas: a que o faz derivar de myo (fechar os olhos, fechar a boca) ou myeo (iniciar, instruir); a que faz derivar de mytheo (falar, narrar); a que faz derivar da raiz indo-europeia meudh ou mudh, que significa «lembrar-se», «desejar com nostalgia», «preocupar-se com o que foi outrora» (...). Entre os gregos o mito era um conceito policémico, designando ora uma «visão de conjunto», ora uma certa unidade gnoseológica de fundo e de forma, ora, «história» de fundo lendário, ora uma fábula de impostura, ora uma pura fantasia sem consistência[26].


A importância nuclear do Mito, afirmada de diferentes formas e em diferentes momentos, assume em cada sociedade um papel insubstituível, ao nível do simbólico, mesmo naquelas que se assumem com modernas e positivistas e que supostamente reduziram o espaço do “mágico” e do “não-racional” a zero. Desde logo, porque como dizia Mircie Eliade “certos mitos sobrevivem ainda nas sociedades modernas, mas não são facilmente reconhecíveis porque sofreram um longo processo de laicização[27]. Mas a evidência e a importância dos mitos nas sociedades modernas não se esgota aí.


Quando Augusto Comte, filósofo francês do século XIX e fundador do positivismo, explica a evolução da humanidade com a teoria dos três estados, define a maturidade do espírito humano pelo abandono de todas as formas míticas e religiosas. Com isso privilegia o facto positivo, ou seja, o facto objectivo, que pode ser medido e controlado pela experimentação. Essa leitura que opõe radicalmente o mito à razão, situa o mito como tentativa fracassada de explicação da realidade.


Ora a euforia positivista já há muito deu lugar a um olhar mais equilibrado. Ao criticar o mito, o positivismo mostra-se reducionista, empobrecendo as possibilidades de abordagens do mundo abertas ao homem. A ciência é necessária, mas não é a única interpretação válida do real, nem é suficiente. O homem moderno, tanto quanto o antigo, não é só razão, mas também emoção...e a vida não é uma simples equação matemática.


Voltando, nesta linha, a Manuel Antunes torna-se claro que “o homem é um “animal mitificador” (animal symbolicum) como é um animal racional ou político. A função mitificadora do homem deriva da sua característica básica de “espírito encarnado”, da peculiar constituição da sua psique, de que são elementos essenciais não apenas a razão e a vontade, mas também a imaginação, não apenas o consciente mas também o inconsciente, não apenas a intelecção mas também a emoção, e deriva da condição de ser-no-mundo e de ser-com-os-outros[28]


Neste eixo vem a orientação que Freud deu à interpretação dos mitos e às explicações sobre sua origem e função. Os mitos seriam uma expressão simbólica dos sentimentos e atitudes inconscientes de um povo, de forma perfeitamente análoga ao que são os sonhos na vida do indivíduo.


Também para Jung, discípulo de Freud e seu colaborador por muitos anos, os mitos seriam uma das manifestações dos arquétipos ou modelos que surgem do inconsciente colectivo da humanidade e que constituem a base da psique humana. A existência do inconsciente colectivo permite compreender a universalidade dos símbolos e dos mitos, pois que estes se revelam em todas as culturas e em todas as épocas de modo idêntico.

Negar o mito seria, pois, negar uma das formas fundamentais da existência humana. O mito é uma primeira forma de dar significado ao mundo. A mitologia, nesta linha, é vista essencialmente como linguagem simbólica ou metafórica, feita essencialmente de imagens que funcionam com símbolos. “Para Bréhier, o Mito constitui o símbolo, o quadro ou a estrutura em que a acção tem sentido, como «destino», como «sucessão de acontecimentos», como «relação essencial ao tempo», como «curva de que o momento presente é apenas um ponto» e como «curva antecipada do futuro».. Não muito distante do simbolismo «idealista» de Bréhier encontra-se o simbolismo «existencialista» de Jaspers para quem o mito constitui uma «história extraordinária que conta o divino», uma «linguagem de transcendência»...”[29]


A dimensão simbólica do mito é também, para cada sociedade, um espelho do que é e uma alavanca do que quer ser. A simbologia expressa no mito contém um valor fundamental para a cultura em ele está inserido. E em determinados momentos históricos, designadamente os de crise profunda, essa função é vital. Assim se compreende que M. Antunes sublinhe que “a função mitificadora exerce-se, principalmente, quando os factores de encarnação, de imaginação, de inconsciente, de emoção, de projecção no exterior, de “tribalização” ou colectivização ou se tornam predominantes ou tendem mesmo a absorver os outros[30]. E então, aí, o mito exprime uma verdade fundamental e tendencialmente absoluta “porque conta uma história sagrada (...), real (...), passível de se repetir[31]. Ou de vir a acontecer.

Na tipologia dos mitos, importa, no contexto deste trabalho, focar o Mito escatológico enquanto mito significativo que tem o homem como ponto de intersecção entre o estado primordial da realidade e sua transformação última, dentro do ciclo permanente nascimento-morte, origem e fim do mundo.


Assim, estes mitos retratam frequentemente o fim do mundo como uma grande destruição, de natureza bélica ou cósmica. Antes da destruição, surge um messias ("ungido") ou salvador, que resgata os eleitos por Deus. Esse salvador pode ser o próprio ancestral do povo ou fundador da sociedade, que empreende uma batalha final contra as forças do mal e, após a vitória, inaugura um novo estágio da criação, um novo céu e uma nova terra. A sua expressão máxima na cultura judaico-cristã está no Livro do Apocalipse, de S. João, mas também prepassa no Antigo Testamento por exemplos como o Dilúvio e a Arca de Noé.

Esta brevíssima abordagem da definição, tipologia e função dos mitos permite-nos enquadrar claramente o tema do Quinto Império do P. António Vieira, enquanto mito escatológico que funciona, para a sociedade portuguesa onde germina e se desenvolve, como «destino», enquanto «curva antecipada do futuro» e expressão do «inconsciente colectivo» do seu tempo.


5. Conclusão

Dos objectivos traçados para este ensaio, consideram-se cumpridos, nos capítulos anteriores, os que se referem à revisitação do Quinto Império e à sua classificação enquanto mito escatológico. Sobra, no entanto, a complexa questão da sua actualidade, mesmo que tal pergunta pareça/seja politicamente incorrecta .

O Quinto Império continua a fazer sentido?

Se considerado no essencial da sua mensagem e se focado na sua principal motivação mobilizadora de uma nação em perigo, o mito do Quinto Império, de António Vieira faz falta ao Portugal contemporâneo.

António Vieira é uma herança portuguesa preciosa para o terceiro milénio. Como no seu tempo, Portugal precisa de se ultrapassar e reencontrar o seu destino no mundo. Como na sua época, o desafio do multiculturalismo, da defesa da diversidade, do diálogo entre crentes e não crentes, bem como a promoção da dignidade humana são desafios em agenda.


Mas, sobretudo, em tempos de crise profunda, onde a nação se inquieta e num pântano de dificuldades onde o país se afunda, urge afirmar que há futuro. Que Portugal pode ser capaz, como já o foi, de mais e melhor. É fundamental actualizar as “Esperanças de Portugal”. E se o Quinto Império, tal como o sonhou Vieira, está datado, o essencial da sua função – construir a esperança, criar confiança e oferecer um desígnio nacional – contínua actual e necessário.

Faltam Vieiras que o digam ao nosso tempo. Com arte e engenho.



6. Bibliografia

Do P. António Vieira, SJ

  • “Obras Escolhidas – Vol. VI – Obras várias”, Livraria Sá da Costa, 1952

  • “Obras Escolhidas – Vol. VIII – História do Futuro (I)” ; Livraria Sá da Costa, 1953

  • “Obras Escolhidas – Vol. IX – História do Futuro (II)”, Livraria Sá da Costa, 1953


De outros autores

  • Lopes, António; “Vieira o Encoberto”, Principia, 1999

  • Vários, Brotéria, edição especial no 3º centenário da morte do P. António Vieira, vol 145, Out/Nov. 1997

  • Coyné, A. “António Vieira e a “Invenção” do Quinto Império”, Brotéria, Março 1995, pag. 321

[1] In Marques, J. Francisco, “A parénese patriótica de Vieira no Brasil filipino e primórdios da Restauração”, Brotéria, vol. 145, Out 97, pag. 275 [2] Taveira da Fonseca, Fernando “A man for all seasons: a acção de Vieira na conjuntura da Restauração” ; Brotéria, vol. 145, Out 97, pag. 303 e seguintes [3] ibidem, pag. 308 [4] ibidem, 282 [5] ibiidem , pag. 308 [6] In Vieira, P.António “Obras Escolhidas” Vol IV – Obras Várias (II); 1951, pag. 2 ; Proposta feita a el-Rei D. João IV, em que se representava o miserável estado do Reino.. [7] ver Lopes, A. “Vieira, o Encoberto”, Principia, 1999, pag. 88 [8] Vieira, Pe. António, “Obras Escolhidas” volume VI Obras Várias, Prefácios e Notas de Hernani Cidade, Livraria Sá da Costa, 1952, pag. 2 [9] ibidem, pag. 40 [10] ibidem, pag. 46 [11] ibidem, pag. 4 [12] ibidem, pag. XI [13] ibidem, pag. 66 [14] ibidem. Pag. XX,XXI [15] Vieira, P. António; “Obras Escolhidas – Vol. VIII – História do Futuro (I)” Livraria Sá da Costa, 1953, pag. 18 [16] ibidem 32 [17] ibidem, pag 63 [18] Vieira, Pe. António, “Obras Escolhidas” volume VI Obras Várias, Prefácios e Notas de Hernani Cidade, Livraria Sá da Costa, 1952, pag. 92 [19]Vieira, P. António; “Obras Escolhidas – Vol. VIII – História do Futuro (I)” Livraria Sá da Costa, 1953, pag. 1 [20] Vieira, Pe. António, “Obras Escolhidas” volume VI Obras Várias, Prefácios e Notas de Hernani Cidade, Livraria Sá da Costa, 1952, pag. 59 [21] ibidem, pag 25 [22] ibidem, pag. 41 [23] ibidem, pag 19 [24] ibiidem, pag. 89 [25] Antunes, M.; Mito, “Enciclopédia Luso Brasileira da Cultura”, 13, 945 [26] ibidem, 945 [27] ibidem, pag. 19 [28] ibidem, pag. 950 [29] ibidem, pag. 947 [30] ibidem, pag. 950 [31] Eliade, M. ; Mitos, Sonhos e Mistérios, Edições 70, Lisboa, 1989, 15

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