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  • Writer's pictureRui Marques

Os nós do Eu e da Rede

Análise crítica de “ A Vida no Ecrã – A identidade na era da Internet” de Sherry Turkle


Nós


1. Substantivo masculino

Laço apertado feito com fita, linha ou corda

Espessamento de um orgão filiforme

Articulação das falanges dos dedos

(figurado)

laço

estorvo

ponto essencial de uma questão

constância

fidelidade


2. Pronome pessoal

Forma de sujeito na primeira pessoa do plural



1. Introdução


Pouco tempo depois do lançamento do seu livro Life on Screen, Sherry Turkle[1] publicava na prestigiada Wired, montra da pós-modernidade do ciberespaço, um sugestivo artigo com o título “Who Am We?”. Em três palavras, sintetizava de forma notável o núcleo central da sua reflexão, desenvolvida ao longo deste artigo que resume mais de 400 páginas do livro. É significativo que logo aí se sublinhe que, muito mais do que sobre computadores ou ciberespaço, esta viagem da autora centra-se na identidade da pessoa, situada num determinado contexto de acelerada mutação tecnológica e social.


Da estimulante leitura de “A Vida no Ecrã”, retém-se com vigor esta metáfora que transpomos para o título – Os Nós do Eu e da Rede – suportada na riqueza que a diversidade dos sentidos da palavra “nós” que a Língua Portuguesa permite.


Ao sublinhado que Turkle fazia na Wired, de um nós que simboliza o eu múltiplo e polifacetado que se deseja integrado e comunicante, escolhemos somar outras duas dimensões, na interpretação da sua obra:


- os nós-laços, na imagem de Lacan[2], que representam a metáfora de processos intrincados e complexos que ocorrem na psyqué humana e que se reflectem, em vários cenários, nas relações entre pessoas.


- Os nós-conecções que, na estrutura da Rede, constituem os pontos de articulação das várias ligações, funcionando como plataformas de cruzamento de dados, com maior ou menor interferência na sua reformatação.


São estas as três etapas escolhidas para uma leitura crítica da obra de Turkle que, embora seguindo um itinerário diferente do seu[3], procuram interpretar o que de mais significativo se apreende desta reflexão. Reflexão claramente optimista, numa visão pouco panfletária e nada ciber-deslumbrada. A Ciência e a opinião pública devem a Sherry Turkle um agradecimento pela luz que faz incidir sobre fenómenos que habitualmente só despertam reacções básicas e pouco fundamentadas. Como a autora diz: “as interrogações levantadas pelo novo modo de vida são difíceis e dolorosas porque tocam no cerne dos nossos problemas sociais mais complexos e irreconciliáveis: problemas de comunidade, governação, equidade e valores. Nestas matérias não há simplesmente boas ou más notícias. Embora isso não nos forneça respostas fáceis, a vida on-line fornece-nos isso sim novas lentes através das quais podemos examinar as complexidades actuais”


2. Os Nós do Eu – o Eu Plural



O eixo mais forte de toda a obra, do primeiro ao último capítulo, assenta sobre a análise do pluralismo do Eu, expresso em novos ambientes digitais, numa cultura de simulação.


Desde logo se vai tornando evidente que “nos mundos mediados por computador o eu é múltiplo, fluido e constituído em interacção com uma rede de máquinas; é formado e transformado pela linguagem; as relações sexuais são trocas de significantes; e a compreensão resulta da navegação sem rumo aparente, mas do que a análise” [4]. Por outro lado - e em simultâneo - percebe-se que “a Internet é outro elemento da cultura de computador que contribuiu para encararmos a identidade como multiplicidade. Nela, as pessoas têm a possibilidade de construir uma personalidade alternando entre muitas personalidade diferentes.[5]


Com a intuição necessária, Turkle vai aprofundando pistas e acrescenta que “embora tradicionalmente a nossa cultura tenda a apresentar a consistência e a coerência como algo de natural, os sentimentos de fragmentação abundam, hoje em dia, mais do que nunca. Aliás, tem sido afirmado que tais sentimentos de fragmentação caracterizam a vida pós-moderna. As teorias que falam da experiência de um eu dividido possuem uma energia particular.”[6]


No trabalho de investigação, a partir de observações atentas e prolongadas dos comportamentos nos MUDs e em jogos de computador, Turkle vai conseguindo consolidar esta tese que confirma uma “história de erosão entre o virtual e o real, o animado e o inanimado, o eu unitário e o eu múltiplo, que está a ocorrer tanto nos domínios da investigação científica como nos padrões da vida quotidiana[7]. Uma das qualidades mais relevantes que evidencia é a capacidade de enunciar perguntas certeiras, sem respostas fáceis.


Que tipo de identidades alternativas adoptamos? Que relações existirão entre estas e aquilo que tradicionalmente encarávamos como a pessoa “inteira”? Encaramo-las como uma expansão do eu ou como algo de separado do eu? E as nossas personalidades da vida real têm algo a aprender com as nossas identidades virtuais? Estas identidades virtuais serão fragmentos duma personalidade coerente da vida real? Como é que se faz a comunicação entre elas? Será um passatempo fútil, uma monumental perda de tempo? Será uma expressão da perda de identidade, do tipo das que associamos tradicionalmente à adolescência ? Ou estaremos a assistir à lenta emergência de um novo estilo de pensamento, de natureza múltipla, acerca da mente?” [8]


Os MUDs foram, evidentemente, um ambiente fantástico de observação para Sherry Turkle. Esses novos mundos virtuais “são um novo tipo de salão virtual e uma nova forma de comunidade. (...) uma nova forma de literatura de escrita colectiva” [9]. Acresce, no entanto, que “tal como na leitura, há texto, mas nos MUDs este é construído em tempo real, e nós tornamo-nos co-autores da história. Tal como na televisão, estamos diante de um ecrã, mas os MUDs são interactivos, o que nos permite assumir o controle do enredo. Tal como na representação, a tarefa explícita é a de construir uma máscara ou identidade fiável.”[10]. A autora sublinha, a partir das entrevistas que realizou, frases como: “Eu sou a personagem e não sou a personagem, ambas as coisas ao mesmo tempo (..) Somos quem fingimos ser.” o que a leva a concluir que “os MUD proporcionam mundos para uma interacção social anónima , onde cada pessoa pode, consoante lhe aprouver, desempenhar um papel o mais semelhante possível ou o mais diferente possível da sua “identidade real””[11]


Estamos, por isso, perante um novo ambiente, totalmente distinto de outros mais antigos onde, apesar de tudo, é possível redescobrir – atrevemo-nos a dizer – questões de sempre. E se é verdade que “Os MUDs implicam diferença, multiplicidade, heterogeneidade e fragmentação.[12] não é menos verdade que, provavelmente, esta tensão entre o unitário e o plural na afirmação de ser humano sempre existiu. Em muitas ocasiões da história da Humanidade, se confrontou, por exemplo, o desempenho de papéis totalmente distintos. O que a ficção consagrou na figura de Ms Hide&Dr. Jackill, a vida revela, de forma mais realista, em personalidades que desempenham vários papéis, em diferentes “janelas”. O que a tecnologia traz de novo a esta dinâmica é a possibilidade desses papéis poderem sobrepor-se no tempo e representarem vidas paralelas.


Mas mais do que a afirmação de um “Eu dividido”, ascende ao longo de “A Vida no Ecrã” a descoberta optimista de um “Eu plural”. Em nenhum momento Sherry Turkle se deixa abater por um discurso “assustado” e alarmista que vê nesta expressão de “diversidade na unidade” sucessivos sinais patológicos e nada mais do que isso.


Temos, pois, um diagnóstico inicial de um eixo tectónico, onde “na era pós-moderna, as identidades múltiplas perderam grande parte do seu caracter marginal.”


Esta convicção de “normalidade” na assunção da pluralidade do eu faz ultrapassar um tempo em que “a identidade era definida como unitária e sólida e os desvios em relação à norma eram fáceis de reconhecer e de censurar. Uma percepção mais fluida do eu permite uma maior capacidade de acolher a diversidade. Torna-se mais fácil aceitar o rol das nossas (e dos outros) identidades inconsistentes – talvez com humor, talvez com ironia. Não nos sentimos compelidos a julgar os elementos da nossa multiplicidade. Não nos sentimos compelidos a excluir o que não se enquadra na norma.”[13]


E a sua visão vai mesmo mais adiante, quando defende que esta realidade, por via da consciência das nossas limitações nos encaminha para “ a necessidade duma filosofia de auto-conhecimento que nunca foi maior que agora, quando lutamos para extrair um sentido das nossas vidas no ecrã”[14]. Sublinha, por outro lado, que esta pluralidade pode representar uma mais-valia enquanto capacidade de adaptação e flexibilidade, trunfos relevantes na sobrevivência nos tempos pós-modernos.


Mas, note-se, que sempre vai referindo que a pluralidade do Eu pode ser também, quando mal gerida, um perigo de implosão e desintegração da personalidade. Então, emergem os outros nós do Eu, enquanto laços apertados, alguns dos quais (quase) impossíveis de desatar.




3. Os Nós do Eu – Os Laços e os Nós



Fácil é, perante o fenómeno dos MUDs ou dos jogos de computador, apontar a sua dimensão alienante e desestruturante. Este é o discurso típico e corrente, nomeadamente entre intelectuais do papel.


A autora também está atenta a esse perigo, embora o enquadre de uma forma menos alarmista. Acredita que “na ausência de um princípio de coerência, o eu dispersa-se em todas as direcções. A multiplicidade não é viável se implicar uma confusão mental que conduz à imobilidade[15] acrescentando que “os MUDs podem ser sítios onde as pessoas desabrocham ou sítios onde as pessoas ficam bloqueadas, presas em mundos auto-suficiente onde as coisas são mais simples que na vida real, e onde, se tudo o resto falhar, podem desactivar a sua personagem e iniciar uma nova vida com outra[16].


É, pois, claro que alguns dos riscos não passam despercebidos a Turkle.


A principal acusação que então surge é a alienação. E quando se ouve sobre um jogo de computador afirmações como “Isto é muito mais real que a minha vida real.... Neste jogo o eu é construído e as regras de interacção social são elaboradas e não recebidas”[17] ou “A vida real é só mais uma janela e normalmente não é a que mais me agrada” [18] compreende-se a preocupação.


È, no entanto, curioso regressar aos autores clássicos que produziram pensamento sobre os fenómenos de alienação. Por exemplo, para Marx esse sentimento de afastamento face a si próprio e aos outros teria a sua origem na negação da essência da natureza humana pela estrutura social. Esta essência humana poderia expressar-se no trabalho criativo e no desenvolvimento de actividades de cooperação com outros indivíduos, pelas quais estes se sentissem a transformar o mundo e a transformar-se a si mesmos. Acusou a sociedade capitalista de negar essas hipóteses de realização e de promover a alienação ao retirar aos trabalhadores qualquer controlo sobre o processo produtivo. Segundo Marx, o sistema de produção capitalista compele ao trabalho retirando-lhe toda a criatividade e espontaneidade, expropria os trabalhadores do produto do seu trabalho e transforma as relações sociais em relações de mercado fazendo do próprio trabalhador uma mercadoria igual às outras[19].


Confrontando com esta análise marxista, não parece ser possível enquadrar a dinâmica do eu plural na cultura de simulação enquanto um fenómeno de alienação. Ao invés, corresponderia por via do trabalho criativo que exige e pelo desenvolvimento de actividades de cooperação com outros indivíduos que encerra, uma negação da alienação. Mas se Marx fosse nosso contemporâneo e conhecesse os MUD incluí-los-ia no universo das alienações?


Outros autores descreveram fenómenos enquadráveis no conceito de alienação. Por exemplo, E. Durkheim estudou o sentimento de separação face à sociedade e a perda do sentido de comunidade (anomia). Mais recentemente, nos anos 50 e 60 do século XX, os cientistas sociais norte-americanos encararam a alienação como um facto psicossocial, enfatizando a dimensão psicológica do sentimento de impotência e alheamento. É neste sentido que o tema se apresenta nas obras de Robert K. Merton e Talcott Parsons. Mas se é verdade que esta experiência no ciberespaço pode representar um afastamento do meio envolvente, Sherry Turkle sublinha outras dimensões de aproximação e de construção de novas comunidades: “Muitas pessoas passam o dia sozinhas ou diante de um ecrã de televisão ou de um computador. Ao mesmo tempo, como seres sociais que somos, estamos a tentar (nas palavras de Mcluhan retribalizar-nos. E, nesse processo, o computador desempenha um papel central”[20]


Fruto de um forte influência das correntes psicanalíticas, a autora também refere como relevantes os fenómenos de projecção, sublinhando que “é nos ecrãs dos computadores que projectamos as nossas ficções, ficções essas de que somos simultaneamente produtores, realizadores e vedetas[21]. Considera para tal efeito serem muito favoráveis, por exemplo, aspectos contextuais da operação: “Nos MUDs a falta de informação acerca da pessoa real com quem estamos a conversar, o silêncio que nos rodeia enquanto premimos as teclas, a ausência de indícios visuais, tudo isto encora a projecção”[22]


Os efeitos positivos desta projecção no “desatar nós” de mentes plurais complexas dependerá sobretudo do equilíbrio pré-existente, servindo estes mecanismos para o potenciar. “Se uma pessoa aborda o universo dos jogos com uma personalidade suficientemente saudável para evoluir com base nas relações que estabelece, os MUDs podem ser-lhe muito úteis. Caso contrário, o resultado pode não ser o melhor.”[23]


Já quando aborda a ambição de psicoterapia a que os computadores podem aspirar é mais clara. Refere, a título de exemplo, um programa de conversa electrónica, designado ELIZA, do qual “Weizenbaum achava que as limitações, facilmente identificáveis, desencorajariam as pessoas de encetar diálogos profundos com ele. Mas enganava-se. Mesmo pessoas que sabiam e compreendiam que o ELIZA era incapaz de saber ou compreender fosse o que fosse, desejavam fazer-lhe confidências. Algumas queriam até ficar a sós com o programa”[24].


Parece um pouco exótico pensar um programa de computador enquanto terapeuta. Mas o que é certo é que, apesar de tudo, tem o seu sentido. Porventura, muito dos “nós do eu” precisam acima de tudo de um espelho que propicie um tempo de auto-análise e as soluções não são externas mas sim geradas pela própria pessoa: “ O mais vulgar era referirem-se ao ELIZA como uma espécie de diário ou espelho. “Eu deito as minhas ideias cá para fora e posso em seguida analisá-las”[25]


Indo mais longe, e como contrapeso à evidente falta do traço humano – de afecto e inteligência – a autora evidencia algumas vantagens da ciber-psicoterapia acreditando que “as pessoas têm muitas razões para procurar a ajuda computorizada, tais como o baixo custo, a conveniência, a constância (os computadores não têm problemas familiares ou financeiros, não cometem indiscrições sexuais, nem têm outros casos mais interessantes em perspectiva). Um computador psicoterapeuta não intimidaria o doente nem adoptaria uma atitude inquisitória.”[26]


Uma outra dimensão que Sherry Turkle aborda, na análise do Homem pós-moderno e das complexidades que encerra, é a transição de uma cultura do Cálculo para um cultura da Simulação. É uma imagem particularmente feliz, transposta do universo da informática, acompanhando a evolução destas máquinas e das suas funções, mas que pode ser facilmente estendida a toda a vida social. “O cerne da cultura do computador deslocou-se da programação para a manipulação de simulações. Na cultura do cálculo, o pluralismo assumia a forma duma diversidade de estilos de programação. Hoje, o pluralismo traduz-se no facto das pessoas reagirem às simulações de modos muito díspares”[27]


A passagem da certeza do Cálculo, onde tipicamente o resultado certo é só um, para um domínio de probabilidades, onde existem vários resultados possíveis e todos certos – típico da cultura da simulação – introduz um outro olhar sobre a natureza humana. Hoje “aprendemos a aceitar as coisas tal como elas se apresentam na interface do computador. Estamos a enveredar por uma cultura de simulação na qual as pessoas sentem cada vez menos pruridos em substituir o real por representações da realidade”[28].


“ O grande receio, obviamente, é o de que, na cultura da simulação, uma palavra como autenticidade já não se possa aplicar”[29], diz Turkle. Mas, como sempre, acrescenta de imediato, algumas perguntas muito certeiras, que destroem de imediato qualquer tentação simplista:


Se um doente sujeito a uma medicação com antidepressivo Prozac diz ao seu terapeuta que se sente mais igual a si próprio quando toma o fármaco do que sem ele, de que forma isso vem alterar as nossas noções correntes de um eu real? Onde acaba a medicação e começa a pessoa? Onde acaba a vida real e começa o jogo? O Eu real será sempre o que ocorre naturalmente? O eu real será sempre o que apresentamos no mundo físico?”[30]


Uma das perspectivas sempre criticadas é a expressão de ciber-sexo, muitas vezes presentes nos MUDs e que muitos só compreendem como expressão de perturbações psico-afectivas relativamente graves. E se é, indiscutivelmente, complexa e difícil de enquadrar nos padrões clássicos esta nova expressão de sexualidade descorporalizada, puramente mental, estaremos porventura longe da verdade ao catalogá-la simplesmente como aberração. E, dessa forma, em nada contribuiremos para perceber, neste domínio, o verdadeiro papel da internet: se potenciadora de comportamentos exóticos e aberrantes ou, pelo contrário, de ajuda para ultrapassagem de bloqueios da vida real, ou simplesmente de lazer inconsequente. A autora não dá grande atenção – talvez o venha a fazer em obra exclusivamente dedicada a este tema.. – mas mesmo assim não deixa de sublinhar, por exemplo, as transferências de sexo enquanto “possibilidade de ter experiências sexuais (ou melhor, Tinysexuais) na pele duma criatura do género oposto, algo que sugere mais do que uma actividade emocionalmente neutra”.


Torna-se assim claro que a vida on-line tem uma estreita implicação com a dinâmica dos nós-laços de quem a habita. A intensidade da experiência não é irrelevante para tornar os nós mais ou menos complexos, embora fique igualmente claro, na opinião de Sherry Turkle, que o património psicológico que cada um transporta consigo quando entra no cibermundo é o elemento determinante no desenrolar das etapas seguintes. É, nesse sentido, que sublinha que “o ciberespaço fornece oportunidades para exprimir aspectos da nossa pessoa que, sem estarem totalmente ocultos, se encontram muitas vezes inibidos na vida real”[31]




  1. Os Nós da Rede


Finalmente, uma outra dimensão relevante, na análise crítica de “A vida no Ecrã” é a Rede, sempre presente. Não é por acaso que o subtítulo do livro é “A identidade na Era da Internet”. A Rede permite, nomeadamente, a existência de “comunidades virtuais nas quais participamos com pessoas de todos os cantos do mundo, pessoas com quem comunicamos diariamente, com quem podemos estabelecer relações íntimas mas que talvez nunca venhamos a encontrar fisicamente” [32]. São estes, também, os nós da rede.


Alguns - e a autora refere-os – sublinham, nesta dinâmica, o perigo da perda progressiva do convívio de proximidade, por exemplo, no café/bar ou pequeno restaurante de bairro para um crescente afirmação de espaços de cruzamento de anónimos. Os ciber-optimistas, acreditam que a tentativa de a internet recriar virtualmente estes espaços de convívio, inverterá a atomização social.


Mas Sherry Turkle parece evidenciar a preferência por soluções mistas, onde o virtual pode conviver com o contacto e conhecimento real dos nós da rede. Cita, por exemplo, um dos principais teorizadores das comunidades virtuais. Na sua leitura, “Rheingold crê que a permeabilidade é essencial para que a palavra comunidade possa ser aplicada aos nossos universos sociais virtuais. Para que uma comunidade funcione enquanto tal, pelo menos alguns dos seus membros têm que quebrar a barreira do ecrã e afectar a vida uns dos outros”[33].


Esta não é, no entanto, uma área particularmente inovadora na sua reflexão. Mais estimulante é a “intromissão” que a autora estuda de novos protagonistas não-humanos nesta Rede, assumindo funções de “nós da rede”. São dedicadas longas páginas à análise de novas realidades que se “intrometem” na rede, assumindo um papel de nó “para-inteligente”. Por exemplo, quando se fala de Julia, um bot que imita pessoas para manter a conversação num chat, que dá respostas “inteligentes” e que se assume como “gestor” de um espaço de convívio on-line, ou de Mobots que pretendem reconhecer o seu meio circundante e identificar qual o problema que teria de ser resolvido a seguir, estamos a falar de novas e perturbantes realidades. A estas acrescem expressões de Inteligência Artificial[34], por exemplo na gestão de e-mail. É que claro que Turkle não deixa de sublinhar que “a verdadeira inteligência não residia naquilo que os computadores conseguem fazer mas em saber se eles são efectivamente dotados de verdadeira compreensão.”[35]


Conclusão


A Vida no Ecrã – A identidade na era da internet” representa, como já foi dito, um contributo importantíssimo para uma melhor compreensão dos impactos e das dinâmicas que o ciberespaço – nomeadamente os territórios dos MUDs e dos jogos virtuais - provocam no “edifício” do Eu.


Num circuito complexo e cheio de interacções positivas e negativas - “Nós construímos as nossas tecnologias e as nossas tecnologias constroem-nos a nós e aos nossos tempos. Os nossos tempos fazem-nos, nós fazemos as nossas máquinas, as nossas máquinas fazem os nossos tempos. Nós convertemo-nos nos objectos para os quais olhamos, mas estes convertem-se naquilo que fazemos deles”[36] – é certo que novos desafios se colocam aos que se sujeitam a percorrer os novos mundos virtuais.


A inevitável descoberta de um Eu plural, com facetas que porventura desconhecíamos e o incontornável desafio de integrar essa diversidade, numa personalidade funcionante e equilibrada representa o primeiro eixo de conclusão. Por outro lado, como segunda pista, surge o saber tirar o devido partido destas experiências cibernéticas para ajudar a resolver os “pequenos-grandes” nós que habitam a nossa mente ou, pelo menos, não deixar que estes contactos on-line descompensem equilíbrios instáveis. Por fim, a consciência da mais-valia que representa ser/estar em Rede, desde que não seja absolutizada a sua expressão virtual e esta conviva equilibradamente com “o resto da vida” que alguns ainda chamam VR _ Vida Real.


Bibliografia


Turkle, S. “A vida no Ecrã. A identidade na era da Internet”, Relógio de Água, 1997


“Sherry Turkle: Fronteiras do real e do Virtual”, entrevista de Federico Casalegno, in Revista FAMECOS, nº 11, Dezembro 1999


“Who am We”, artigo de Sherry Turkle para Wired, Janeiro de 1996


Young, R, “Anthropology of ciberspace”; Simon and Schuster; 1995

[1] Sherry Turkle é professora de Sociologia do MIT (Massachussets Institut of Tecnology), sendo doutorada por Harvard em Psicologia da Personalidade. A sua melhor definição poderia ser como antropologista do ciberespaço. [2] “Perto do final da sua vida o filósofo francês da psicanálise, Jacques Lacan sentia-se fascinado por pequenos pedaços de cordel nos quais dava nós complexos, nós esses cuja configurações ele julgava simbolizarem os mecanismos do inconsciente” [3] A obra está dividida em 3 partes (As seduções da interface, Sonhos e Animais e Na Internet). A primeira e a terceira são mais interessantes claramente centradas na dinâmica humana em ambiente cibernético. A segunda diverge um pouco desta linha, pois centra-se mais nas máquinas que nas pessoas. [4] pag. 21 [5] pag. 264 [6] pag. 212 [7] pag. 12 [8] pag. 265 [9] pag. 15 [10] pag. 272 [11] pag. 15 [12] pag. 273 [13] pag. 391 [14] pag. 403 [15] pag. 385 [16] pag. 274 [17] pag. 13 [18] pag. 18 [19] in Artigo sobre Alienação na Diciopédia 2002, Porto Editora [20] pag. 262 [21] pag. 37 [22] pag. 308 [23] pag. 304 [24] pag. 154 [25] pag. 159 [26] pag. 158 [27] pag.93 [28] pag. 33 [29] pag. 380 [30] pag. 359 [31] pag. 305 [32] pag. 12 [33] pag. 367 [34] “Inteligência Artificial é, segundo Marvin Minsky, tentar que os computadores façam coisas que seriam consideradas inteligentes se fossem pessoas a fazê-las” pag, 184 [35] pag. 191 [36] Pag. 68

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