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  • Writer's pictureRui Marques

Política: a mais alta forma de caridade?

Artigo para Revista Communio




1. Ousadia para os nossos tempos Nos tempos que correm quase parece estranho alguém ter ousado dizer isto.

Assim se justifica a interrogação estupefacta do título. Creio, no entanto, que

Paulo VIi sabia bem o que queria dizer. Ao contrário do cepticismo que tudo

corrói e nada deixa de pé, Paulo VI expressava desta forma a esperança na

capacidade transformadora de uma intervenção política inspirada pelos valores

evangélicos. Na verdade, já Pio XI se tinha referido à política como “um ramo

do amor ao próximo” e outros sucessores de Pedroii foram sinalizando a

importância da intervenção política. Porém, sendo realista, não é esta a visão

que o nosso tempo (e nele, muitas das vozes da nossa Igreja) cultiva sobre a

política e os seus autores.

A sociedade da desconfiança, fruto e semente de uma cultura mediática que

entroniza o princípio “bad news; good news”, vai demolindo dia-a-dia o que

restava do prestígio do exercício da actividade política. Fá-lo através da

profusão de escândalos que, tendo muitos deles fundamento, não reflectem

toda a realidade, ignorando assim a imensa maioria silenciosa de gestos

políticos motivados pelo bem comum. Sucedem-se os discursos de descrença e

de desconfiança, de estigmatização e de desconsideração. Apelidar alguém de

“político” há muito passou a ser ofensa ou, no mínimo, não sinaliza nada de

bom. Fomos perdendo, dessa forma, a capacidade de ver a política como uma

expressão de serviço ao bem comum e já não acreditamos que alguém a exerça

como missão de serviço à comunidade. Ninguém arrisca, por isso, definir a

política como espaço privilegiado de exercício da caridade.

As consequências estão à vista. A abstenção eleitoral e a indisponibilidade para

a participação política activa, exercida gratuitamente em função do bem

comum, vão subindo progressivamente. Com a desertificação da participação

política, nomeadamente dos cristãos, vão desaparecendo protagonistas que

pudessem interpretar nesse terreno – ainda que de uma forma imperfeita,

como a fragilidade da natureza humana impõe – os valores evangélicos. Ao

mesmo tempo, multiplicam-se as vocações de serviço ao bem comum, através

da solidariedade e da acção caritativa directa que é visível e sensível. Mas

desses, poucos se imaginariam a exercer o seu voluntariado solidário através da

política.

2. Condicionalismos da actividade política no século XXI

A realidade política é, naturalmente, detentora de parte significativa da “culpa”

deste desinteresse e afastamento dos cidadãos e, entre eles, dos cristãos.

Vezes de mais, deixou-se aprisionar por uma prática que a empobrece e a

menoriza. Ao integrar os ensinamentos perversos de algumas teses, entre as

quais o maquiavelismo não será das menores, a política perdeu a sua grandeza

e a sua beleza. O foco na conquista e manutenção do poder enquanto fim em si

mesmo, envenenou a natureza sublime da política. Mas, convenhamos, em

pleno século XXI também não é fácil exercer uma actividade política.

A política tem que responder hoje a desafios de uma sociedade turbulenta, em

permanente mudança numa velocidade estonteante. Nada “é”, tudo “já foi”. A

introdução de uma permanente incerteza sobre tudo, torna infernal o exercício

da actividade política. A validade dos diagnósticos encurta-se. Abdica-se dos

tempos de maturação das soluções propostas. Mesmo assim, quando estas

chegam ao terreno já estão desfasadas da realidade. O problema que se queria

solucionar evolui e o contexto mudou. Como será possível fazer um puzzle de

imagens em movimento que mudam em cada 30 segundos?

Fazer politica neste quadro é, por isso, missão muito difícil, mesmo para gente

bem formada e competente. Acresce ainda que a realidade se complexificou.

Hoje, nada é simples. Só o poderá ser para irresponsáveis ou demagogos. Cada

questão arrasta um sem número de sub-questões que tornam cada problema

num novelo cheio de nós. E do lado das soluções, a conjugação da resposta

técnica, com a financeira e a política, resulta muitas vezes num conjunto vazio.

Mas os problemas não acabam aqui.

Hoje, na verdade, o exercício da actividade política tornou-se num dos

pequenos poderes da nossa sociedade. Ao contrário do que porventura se

julga, os políticos podem muito pouco. Outros poderes fácticos afirmam-se

avassaladoramente. Basta falar de dois deles: o poder mediático e o poder

económico. Actualmente a actividade política está completamente

condicionada pela agenda mediática. Creio não estar longe da realidade se

afirmar que mais de 50% do tempo dos agentes políticos é consumido pelo

impacto mediático sofrido ou que se deseja provocar. É evidente que a

transparência e a fiscalização que a actividade política é sujeita a partir da

agenda mediática tem inúmeras vantagens. Mas traz com ela enormes riscos.

Por exemplo, tudo o que não é instantâneo, espectacular ou exótico não tem

lugar mediático. Ora, a política a sério raramente pode ou deve ter estas

características. Por outro lado, quem tem acesso à agenda mediática é capaz de

pressionar o poder político em favor da sua causa e consegue focar a atenção

dos políticos no tema que lhe interessa. Mas muitas vezes as verdadeiras

causas urgentes e relevantes para a acção política residem em quem não tem

poder mediático e não consegue atenção dos políticos por via dessa pressão.

Só que os políticos não têm tempo para quem não tem “poder de fogo”

mediático…

Também alguns agentes do poder económico têm hoje interfaces muito

perigosos com o poder político. Às vezes, dá a sensação que neles reside o

verdadeiro poder, capaz de influenciar, por diferentes jogos de bastidores, o

curso da actividade política, tornando os políticos em simples marionetas de

interesses obscuros.

Finalmente, neste desfiar de dificuldades, a própria cultura de exercício da

actividade política transporta as sementes da sua destruição. O conflito

permanente, o ataque sem quartel, a demolição persistente do adversário, a

avidez de poder configuram a politica como algo de detestável aos olhos dos

cidadãos. A ausência de gestos de verdadeiro diálogo e de profundo sentido de

cooperação em função do bem comum, que vão além das naturais diferenças

ideológicas e programáticas, é também a causa do descrédito desta nobre

função social.

3. Conflitos entre a natureza da política e da religião

Uma outra dimensão relevante para esta reflexão, decorre da natureza

diferente da religião e da política, em particular da Igreja Católica e das

democracias ocidentais, e consequentemente do funcionamento das suas

instituições e da especificidade do seu olhar sobre a realidade. E não podiam

ser mais diferentes.

A Igreja vive sustentada numa Verdade revelada, sedimentada pela sabedoria

milenar de muitas gerações e está vocacionada para um horizonte de vida

eterna. O exercício da actividade política numa democracia representativa tem

a sua legitimidade no voto popular que referenda um programa conjuntural e

que dura – se durar – uma legislatura.

A Igreja tem uma hierarquia consolidada, com estreitos limites de exercício

democrático, no sentido da eleição dos seus dirigentes não estar sujeita a

votação dos seus membros e não está sujeita à volatilidade de ciclos eleitorais.

Na política vive-se permanentemente no fio da navalha dos resultados dos

votos (dentro do partido e no país), tendo toda a actividade condicionada por

esse micro e macro julgamento popular.

A Igreja, e bem, não tem que apresentar soluções concretas para os problemas

de cada sector. Deve situar-se, na sua doutrina social, ao nível da defesa dos

princípios e dos valores fundamentais. Consequentemente, nunca será julgada

pela adequação de propostas concretas. Já a política, se é verdade que deve ter

a sua âncora nos princípios e valores, têm que dar passo para o “como fazer”,

traduzindo para o concreto de cada contexto, a solução possível. E será julgada

por isso.

Creio que vale a pena ter em conta estas diferenças significativas para melhor

poder desenvolver o diálogo entre a Igreja e a política. Da parte dos políticos,

independentemente da sua convicção religiosa, importaria ouvir humildemente

e com atenção a sabedoria secular que a Igreja transporta e, sem complexos,

acolher o muito de bom que encerra. Mas seria igualmente útil ter da Igreja

sinais de quem percebe a contingência da natureza do exercício da política e

não lhe exige o impossível.

4. Que esperar da Igreja em relação à política?

Aprofundemos um pouco este ponto: que pode a política esperar da Igreja? O

que podem, particularmente os católicos empenhados na política, esperar da

sua “Mãe e Mestra”?

O primeiro e porventura mais importante contributo que a Igreja é chamada a

dar é a memória, o aprofundamento, a actualização e a renovação da sua

Doutrina Social. Ao longo de mais de um século, tem sido desenvolvido o que é

hoje um património precioso, que nos ilumina a todos. A defesa da dignidade

humana, do bem comum, da paz e da justiça têm tido expressão magnífica na

voz da magistratura da Igreja. O mundo muito lhe deve. Recuperar as grandes

mensagens desde a Rerum Novarum, até à Deus Caritas Est, passando pela

Populorum Progressio e sobretudo pela Gaudium et Spes é essencial. A Igreja é,

nesses documentos, portadora de uma visão sobre o destino da humanidade

que vai muito para lá das fronteiras do religioso. Mas o mundo não pára e

novos desafios vão sendo colocados. Na economia, na cultura, na sociedade e

na política. A Doutrina Social da Igreja precisa de acompanhar essas novas

fronteiras e, em tempo, ter a palavra sábia e inspiradora para nos ajudar a

enfrentar esses desafios. Uma palavra que em cada um deles seja visível o

rosto misericordioso de Deus e o sinal de esperança do qual os cristãos são

dilectos portadores.

No passado, a Igreja Católica teve a ousadia de proclamar a sua “opção

preferencial pelos mais pobres”. O mundo, e a política em particular,

beneficiariam muito de ter uma Igreja que fosse sempre “a voz dos que não

têm voz”. Que pelas palavras e pelos actos, continuasse a ser a primeira linha

de uma expressão do amor ao próximo, exercido com particular atenção aos

mais necessitados, onde quer que estejam e o que quer que precisem.

Num tempo que Bento XVI tão bem nos lembra que “a verdadeira pobreza é a

falta de esperança”iii a política e a sociedade em geral, esperam da Igreja esse

protagonismo da voz da esperança para o nosso tempo. Quando todos os

diagnósticos são catastrofistas e não parece vislumbrar-se nenhuma réstia de

luz, da Igreja, sede de um saber de salvação eterna, pode vir a palavra certa

que contextualiza as dificuldades presentes e lhes dá um potencial significado à

luz da esperança.

Por último, a política beneficiaria muito de um reforço do apelo da Igreja à

participação política dos cristãos. Na diferença das vocações de cada um, pois a

participação política não se esgota nos partidos (mas é essencial aí também), o

incentivo ao exercício da missão de serviço ao próximo através da política

poderia ser um contributo inexcedível. Mais católicos na política abririam

seguramente mais hipóteses para a expressão dos valores evangélicos, qual

fermento que possa levedar a massa. Num contexto de separação saudável

entre religião e política, assumindo diferentes inserções partidárias como

legitimas, continuando a recusar “partidos cristãos” que se arroguem da

exclusiva representação dos católicos, a Igreja poderia, sem medo, contribuir

para uma verdadeira renovação na política, da qual esta está carente.

5. Que apelo aos cristãos em relação à actividade política?

A voz magistral da Igreja sempre nos deixou de uma forma clara o apelo à

participação política. Basta lembrar, do Vaticano II, a Gaudium et Spes:

“75 - Os que são ou podem tornar-se aptos para exercer a difícil e muito

nobre (7) arte da política, preparem-se para ela; e procurem exercê-la

sem pensar no interesse próprio ou em vantagens materiais. Procedam

com inteireza e prudência contra a injustiça e a opressão, contra o

arbitrário domínio de uma pessoa ou de um partido, e contra a

intolerância. E dediquem-se com sinceridade e equidade, mais ainda, com

caridade e fortaleza política, ao bem de todos.”

Num outro documentoiv diz-se:

“14 - " (…)Os católicos peritos nos negócios públicos e firmes, como devem

ser, na fé e doutrina cristã, não recusem participar neles uma vez que,

exercendo-os dignamente, podem atender ao bem comum e, ao mesmo

tempo, abrir caminho ao . Evangelho.".

Já João Paulo II, na sua Exortação Apostólica "Christifideles Laici" era

inequívoco:

42. (..)Para animar cristãmente a ordem temporal, no sentido

que se disse de servir a pessoa e a sociedade, os fiéis leigos não

podem absolutamente abdicar da participação na «política»,

ou seja, da múltipla e variada acção económica, social,

legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover

orgânica e institucionalmente o bem comum. Como

repetidamente afirmaram os Padres sinodais, todos e cada um

têm o direito e o dever de participar na política, embora em

diversidade e complementaridade de formas, níveis, funções e

responsabilidades. As acusações de arrivismo, idolatria de

poder, egoísmo e corrupção que muitas vezes são dirigidas aos

homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou

partido político, bem como a opinião muito difusa de que a

política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam

minimamente nem o cepticismo nem o absentismo dos cristãos

pela coisa pública.”

Independentemente do papel que a Igreja possa desempenhar no maior ou

menor incentivo ao empenhamento político dos católicos, é à consciência de

cada um que se coloca esse desafio. Que papel queremos ter na construção da

“cidade dos Homens”?

Hoje, a intervenção política, em estrito e lato senso, pode representar uma

opção desconfortável e pouco estimulante. Mas abdicar dela é faltar à ambição

do maior serviço ao bem comum.

Por isso, na agenda dos católicos do nosso tempo estará sempre este desafio

de ajudar a mudar as estruturas do pecado social, através da capacidade real de

se opor a tudo o que atenta contra a dignidade humana e de se mobilizar para

tudo o que a promova.

Servos do bem comum, os católicos na politica, com outros Homens de boa

vontade e de outras convicções religiosas (ou mesmo sem elas), podem dar

corpo à opção preferencial pelos mais pobres, rasgando horizontes de

esperança.

Na política, poderão ser discípulos e pontífices (construtores de pontes) na

expressão do amor ao próximo. E assim, experimentarão a mais alta forma de

caridade.

i “A política é a mais alta forma de caridade” Paulo VI

ii Ver, por exemplo, a Exortação Apostólica "Christifideles Laici"João Paulo II

iii Discurso aos membros do Conselho de Administração da Fundação "Populorum Progressio", para a América Latina e o Caribe,

14/7/2007

iv Apostolicam Actuositatem – Apostolado de Leigos


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