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  • Writer's pictureRui Marques

Um símbolo da vitória do espírito humano sobre a adversidade (Para um dia visitar...)

Poucos sítios do mundo terão inscrito no seu chão tão grande hino de vitória do espírito humano sobre a adversidade e a injustiça como a prisão de Robben Island. Esta acolheu milhares de presos políticos no período do apartheid, na África do Sul, particularmente entre 1961 e 1991. Entre eles, esteve Nelson Mandela, que aí foi sujeito a 18 anos de prisão (dos 27 que cumpriu). É dele a principal marca que este sítio, atual património mundial da humanidade na UNESCO, guarda e que o torna um lugar único.


(viagem de 2011, da 1ª edição da Academia Ubuntu a Robben Island, filmada por Kattia Hernandez)


Colocar os pés naquela pequena ilha era algo de muito especial. Quando o fizemos pela primeira vez, em 2011, no contexto da Academia de Líderes Ubuntu, com alguns dos participantes da primeira edição, suspeitávamos já do impacto que teria essa visita. Mas estávamos longe de imaginar tudo o que lá se sente.


A “Ilha das focas” (na tradução para português esse é o significado de “Robben”) tem um clima de extremos – particularmente duro para quem vivia numa prisão – em especial, no inverno frio e chuvoso. Mas naqueles dias de visita, era o sol que dominava. Em regime de turismo, tudo é bonito: a paisagem que vai ficando para trás das costas, com a Table Mountain a enquadrar Cape Town, bem como um mar largo de azul profundo. Mas para quem, anos antes, fazia a experiência da prisão, tudo era agreste.


A ilha é suficientemente distante da costa, num mar com vários perigos, para se tornar impossível fugir de lá. Desde que Bartolomeu Dias, em 1488 (sim, os portugueses também passaram por lá) deixou aí a primeira marca, foi sendo utilizada como espaço de isolamento pelas potências coloniais, em particular holandeses e ingleses, desde leprosaria, ponto de quarentena a diferentes formatos de campos de detenção e prisão. A sua adequabilidade para essa função explica o difícil que foi para Mandela viver ali, ano após ano.


O complexo prisional que Nelson conheceu permanece ainda de pé. Cuidado como importante instrumento de memória coletiva, é uma peça fundamental para que, recordando, se evite repetir tudo o que o apartheid simbolizou. Nesse complexo, ocupa particular importância a cela de Mandela, recuperada como estava, aquando dos dezoito anos da sua detenção. Três mantas, um tapete de sisal, um balde e um banco. Era tudo.


Um dos momentos mais extraordinários desta visita – verdadeiramente transformador – ocorreu a partir de uma oportunidade rara para um visitante comum. Na nossa visita (em 2011 e também em 2018) pudemos pernoitar na ilha. Isso significa que, quando a meio da tarde os magotes de turistas regressam à Cidade do Cabo, a ilha fica por nossa conta. Uns poucos funcionários asseguram o essencial, mas é o grande tempo do silêncio. Revistar toda a prisão, o pátio e a cela de Mandela, nesse cenário é uma experiência única.


Nesses momentos, sem palavras, revisitámos também um Mandela, que aí esteve por duas vezes (em 1963 e depois entre 1964 e 1982), repetindo o seu poema favorito, o Invictus, repetindo pausadamente os dois últimos versos: “Eu sou senhor do meu destino, eu sou capitão da minha alma”. Imaginamo-lo particularmente em momentos duros, como os que viveu em 1968 e 69, quando recebeu a notícia da morte da sua mãe e, principalmente, do seu filho Thembi e é proibido de assistir ao funeral. Ou quando recebe as notícias preocupantes da detenção da sua mulher, Winnie e do sofrimento das suas filhas. Ou ainda quando, por nada, via recorrentemente uma das suas duas únicas visitas anuais ser anulada pelo diretor da prisão. Já fora das paredes da prisão, no caminho até à pedreira, lugar dos trabalhos forçados, o silêncio deixa ecoar as humilhações, os gritos e as ameaças dos guardas. Tudo em Robben Island era feito para esmagar o carácter e triturar a determinação de Mandela. Mas nada o logrou.


Com igual perplexidade, ouvimos as histórias de um dos carcereiros de Mandela, com que nos cruzámos nestas visitas. Christo Brando, ainda no ativo, foi um dos guardas da prisão encarregue de vigiar o líder do ANC, a par com James Gregory e Jack Swart. A história destas relações é também um dos patrimónios intangíveis do local. A forma como Mandela consegue ver a pessoa para além da função, como apesar de vitima consegue empatizar com o carcereiro é um dos traços únicos da memória deste local de trevas, que foi sendo marcado pela coragem deste homem. O momento em que mais tarde, na sua tomada de posse, em maio de 1994, convida aqueles homens para que se sentem na tribuna de honra diz muito sobre a sua grandeza de alma.


Para os lideres Ubuntu esta visita a uma história que tinha tudo para ser o berço de um ódio e desejo de vingança infinitos, por tudo o que Mandela aqui sofreu, mas que foi transformada numa infinita capacidade de perdão e reconciliação, de construção de pontes para um futuro comum, é a melhor lição que podemos trazer. Particularmente para estes tempos nos quais a polarização, a violência verbal e o ressentimento marcam a agenda, vale a pena regressar a Robben Island e revisitar o legado de Mandela.

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