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  • Writer's pictureRui Marques

"Os milagres da Cela 7" em tempo pascal

Em Sábado Santo, o filme “Milagre da cela 7”, disponível na Netflix, constitui uma excelente porta de entrada para o mistério que estes dias celebram. Inesperadamente é um filme realizado num contexto cultural não-cristão (Turquia muçulmana, num dos quatro remakes de um filme sul-coreano, de 2013) que nos ilumina esse gesto extraordinário do que significa o amor incondicional e a capacidade de amar até fim, mesmo dando a vida, se for necessário.

(se ainda não viu o filme, suspenda aqui a leitura, vá vê-lo e regresse depois)

Memo, personagem central do filme, traz-nos o melhor da humanidade, ainda que ferida ou diferente. A sua capacidade de amar, a sua alegria transbordante ou a sua imaginação criativa no que vê, mostram-nos o melhor do que somos capazes. Este porfolio de virtudes, interpretado pelo suposto “louco” da pequena comunidade, ilumina o que qualquer pessoa, independentemente da classificação que lhe é feita quanto à “normalidade”, é capaz de albergar nesse fogo sagrado de “Ser Humano”. Memo e a sua filha, Ova, mas também Memo e os seus companheiros de cela e todo o pessoal da prisão, representam coreografias de um amor transformador que ilumina e fortalece quem ama e quem é amado. Este é um amor que pode ajudar cada um a encontrar a sua plena dignidade humana, na melhor versão de si mesmo.





O filme traz-nos um retrato de três poderes colossais:


1. O poder transformador da compaixão.

O primeiro milagre que acontece na cela 7 (cheio de significado este número escolhido para a cela, 70*7…) é, sem dúvida, o da compaixão. Um bando de criminosos (todos “doentes” dos seus caminhos, na confissão que vão fazendo a Memo) transforma-se progressivamente pela presença de Memo. De um julgamento violento e implacável com que o recebem vai nascendo uma outra experiência, primeiro de perplexidade, depois de empatia e, finalmente, de compaixão. As conversas que se vão desfiando, os esquemas loucos de promover o reencontro de Memo e Ova, e tudo o que vai acontecendo até ao momento final, mostram como a compaixão nos pode transformar e ajudar a encontrar o bem que temos, mesmo que dele não suspeitemos. Quando vemos o sofrimento do Outro e com ele nos comovemos, tudo muda.

Memo traz a salvação aquela cela, acima de tudo, pela forma como é capaz de amar, incondicionalmente. O seu testemunho não precisa de brilho intelectual, nem gestos grandiosos. A sua simplicidade toca profundamente os seus companheiros e abre-lhes o caminho para outra vida. A grandiosidade do que acontece é de tal ordem que ninguém na prisão lhe fica indiferente e todos, do diretor ao chefe dos guardas, se vão contaminando desta compaixão que a todos transforma.

2. O poder destruidor do ressentimento e do ódio

Mas ao lado, a tragédia desenrola-se com uma dor sem saída. O Tenente-Coronel Aydin interpreta o lado perverso de como uma dor incalculável – a perda de uma filha – se vai transformando num ressentimento incalculável, até à loucura de um ódio à solta que tolda a alma e toda a capacidade de discernir. O sofrimento, se mal integrado, pode arrastar-nos para essa armadilha fatal na qual a nossa humanidade se eclipsa e nos transforma em alguém capaz de fazer o impensável. No final, Aydin perde não só a sua filha, mas toda a sua vida, transformando-a numa noite escura.

3. O poder salvador da redenção

Finalmente, o Milagre da redenção, tão próprio de um tempo Pascal. A redenção acontece com todos os que se deixam tocar pelo amor de Memo. Mas entre todos, o seu companheiro de cela, que vivia atormentado pelo remorso da morte da sua mulher e da sua filha, olhando infindavelmente a “árvore” na sua parede da cela, leva ao mais elevado exponencial essa redenção, ao dar a vida por Memo. Soa familiar neste dia: “não há maior amor que dar a vida..”. Dar a vida para a salvar. A força redentora desse gesto, o acolhimento sagrado dos companheiros de cela e dos funcionários da prisão a essa entrega, ou a força cénica desses últimos momentos apontam, em tudo, para a Cruz.

O “Milagre da Cela 7” está no top das visualizações na Netflix. É tema corrente nas redes sociais e nas conversas por estes dias. Parece corresponder ao que queremos ver, nos enche e nos lava, não só pelas lágrimas, mas também por nos limpar o olhar para ver o que é essencial.



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