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  • Writer's pictureRui Marques

A beleza de uma escrita de viagem para fora da ilha

Conheço o Miguel Justino há muitos anos. Trabalhámos juntos no ACIME e desenvolvemos uma boa amizade. Nos últimos anos, a vida levou-nos por caminhos diferentes. As redes sociais, porém, também fazem maravilhas (quando bem usadas) e, tem sido nelas que tenho descoberto um talento notável, que não conhecia bem, neste meu amigo. Às vezes, precisamos de estar mais longe para ver algumas coisas que de perto não se vislumbram.


O talento do Miguel Justino para a arquitectura das palavras e para a estética das fotografias faz dele um autor a seguir com atenção. Enquanto não sai o seu primeiro livro que todos esperamos, pode ir seguindo na sua página de Facebook pequenos excertos de inspiração certa, como este:


“Para onde vais tu, Norbu? O mundo está cheio de aeroportos e gente que precisa urgentemente de viajar. Podemos levantar voo em cada esquina, basta um cartão com crédito, o desejo e algumas formalidades mundanas. Eu acabo de entrar num e fui atacado por uma súbita amnésia. Não me recordo onde estou. Devo preocupar-me? Não. É indiferente, este é igual ao outro. Tenho de esperar e já decidi o próximo passo, vou sentar-me a comer um pão com lascas de salmão de viveiro, fumado, que acabei de comprar num quiosque, alma gémea daquele que vi em Lisboa. A sandes é linda, tem sementes coladas na sua pele dourada, e as lascas pendem para fora, assentes numa folha verde, visivelmente fresca e suculenta, mas devidamente barrada com um molho cocktail, tal e qual a alma gémea que conheci e provei em Lisboa. Dá gosto por-lhes as mãos, a forma e o makeup fazem-me corar, são de uma sensualidade que suscita desejos. Trinco com suavidade. O sabor da expectativa é sempre melhor do que a dentada na desilusão. Não se pode dizer que sabe a mar ou a rio, traz no paladar um gosto internacional, a frescura da costa de Alesund, na Noruega, onde nadava, derreteu-se na maionese francesa. Viajar criou um mundo infinito de novas identidades. Já pouco sabe ao que sabia. Entretanto inventaram o botox, e também já ninguém se quer parecer como pareceria. Os olhos também comem. A crua verdade é que praticamente ninguém padece de comida insossa, se excluirmos a turba dos puristas. Graças aos aeroportos a pera abacate tem o visto de migrante, venceu o peso da geografia, a rudeza imprópria da sazonalidade, e faz hoje parte do cardápio do pequeno almoço da geração europeia vegan, culta e civilizada, defensora dos mais elevados padrões de sustentabilidade. O absentismo crítico, as modas, o Instagram, o destempero, a ganância e a iniquidade são vírus letais, mas quem quiser que atire a primeira pedra, que eu gosto de abacate. O meu voo está atrasado. O aeroporto é um destilador de ansiedade. À minha frente o desfile é contínuo: famílias, corporações, cores, castas, clubes e tribos, gente e mais gente à espera de levantar céu adentro. Por aqui nada de novo. Os destinos repetem-se no ecrã gigante com a mesma monotonia mecânica que padecem 99% das vidas. Estranhamente o contentamento é generalizado, talvez porque voar alimente um sonho que vive e nos embala até ao despertar. Esfregando as pupilas, um aeroporto é a roda oleada dos hámsteres. Terminei a sandes de salmão em boa hora. No altifalante irrompe uma voz distinta e doce a anunciar: senhoras e senhores, para todos aqueles que acreditam poder alcançar o inalcançável, dentro de momentos vai partir um avião sem destino, o seu nome é Norbu, que significa jóia. São todos nossos convidados, sendo apenas proibido perguntar: para onde voas tu, Norbu? A estupefação está estampada. Ninguém se mexe. Nem um pio, nem um passo. Eu despertei da amnésia, já sei para onde vou!" Miguel Justino, in Diários da Minha Viagem
Fotografia: Miguel Justino

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