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  • Writer's pictureRui Marques

A cidade relacional de Miquel Lacasta

Tive a ocasião de, por estes dias, me cruzar com o arquiteto catalão Miquel Lacasta. Visitei-o no seu atelier em Barcelona e, dias depois, recebemo-lo em Gaia, no âmbito do projeto Laboratório das Cidades Relacionais, que desenvolvemos conjuntamente com a Gaia Urb, empresa municipal de urbanismo e habitação deste concelho.


O espaço em que trabalha – Kubik – reflete todo um conceito e forma de estar. Nos anos 90, antecipando o que é hoje o movimento “coworking, o seu espaço reúne mais de 100 coworkers, entre os quais se encontram os membros da sua equipa, Archikubik. A simplicidade de um espaço sóbrio e uma cultura de comunidade vivida, têm-lhe proporcionado (e aos seus sócios) a oportunidade de aprender e crescer.



Essa cultura de relação leva-o a desenhar o seu ecossistema de ação de uma forma multidisciplinar e baseada na interdependência, em que a sua ação se revê obrigatoriamente na relação com outros que lhe trazem, não só o que lhe falta mas, sobretudo, o que lhe acrescenta valor.


O seu interesse pelo tema da cidade relacional está espelhado no seu blogue Axonometrica, no qual se podem encontrar vários textos que nos inspiram para a melhor compreensão desta visão. Numa abordagem a várias escalas, fica a ideia dos diálogos e tensões entre a “Cidade intensa”, que traz a densidade, a sua natureza compacta e a complexidade, a que se soma a “Cidade humana”, com o seu capital humano, que se desenvolve em espaços públicos e em espaços privados participados, e a “Cidade diversidade”, com todos os mix possíveis, de natureza social, étnica, religiosa ou, numa outra perspetiva, de usos e tipologias. Finalmente, “a cidade relacional” surge associada à coopetição, à reversibilidade como condição de resiliência e ao verde, em que a “a paisagem é infraestrutura”.


Uma outra ideia interessante que apresentou na conferência na Casa da Arquitectura, em Matosinhos, é uma alternativa da utilização do acrónimo TIC em que, em vez do clássico Tecnologias de Informação e Comunicação, Lacasta propõe Talento/ Imaginação/ Criatividade, como recursos essenciais para uma cidade relacional. Uma outra referência útil é o foco na compreensão do Ciclos (da água, do ar, da vida, da energia, dos resíduos, ...) como chave de ação, naturalmente presente nas temáticas da economia circular, mas que vai muito para além disso, pois uma cidade relacional deve integrar e antecipar ciclos. Nesse sentido, vale a pena retomar o conceito da “reversibilidade”, pois um mundo feito de ciclos curtos, em permanente mudança existe um particular cuidado com o botão “uninstall”, ou seja, a previsão sempre presente que as coisas podem mudar e obrigar a uma flexibilidade e adaptação para sobreviver.


Estruturando muito o seu olhar na transição do “Me” para o “We”, tem desenvolvido vários projetos inspiradores e, com um eles, embora ainda em fase de construção, venceu o prémio espanhol de urbanismo de 2021. Trata-se de uma “agro-cidade”, nos arredores de Paris (Ivry-sur-seine) em que procura fundir dois mundos aparentemente separados à nascença.

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