• Rui Marques

A Colômbia como terreno fértil

Desde 2017, já visitei a Colômbia cinco vezes. Foi aí que fizemos as primeiras Academias de Líderes Ubuntu na América Latina e que aprendemos como é tão difícil construir a paz e, mesmo assim, nunca se deve perder a esperança...desta vez foi tempo de lançar mais sementes para o futuro, com o apoio da OEI Portugal.


A convite da Virtual Educa, um evento de grande relevância no domínio da transformação da educação a partir da ciência, da tecnologia e da inovação, tive a oportunidade de voltar a Medellin. Em si mesmo o evento é um fantástico mundo de interações e de contributos sobre os desafios da educação para o futuro. Com cerca de 200 oradores, espalhados por várias salas em sessões simultâneas, pudemos ouvir e aprender, mas também explicar e mostrar a metodologia Ubuntu. Fico sempre surpreendido com o acolhimento e a adesão que essas apresentações desencadeiam. Em dois momentos diferentes, num modelo simultaneamente presencial e on-line, pude sublinhar a correlação do Ubuntu com o desenvolvimento das competências socio-emocionais, ou com a capacidade de construir pontes.


Depois foi tempo de rumar a Cúcuta para lançar o primeiro piloto de 4 Escolas Ubuntu, replicando o que temos vindo a fazer em Portugal. Começando, como sempre, pela formação de formadores, capacitámos 40 novos formadores, com a participação da rede de formadores “pró” que já aqui temos. A adesão foi excelente e esta semana desenvolvem-se as Semanas Ubuntu nestas Escolas. Esta iniciativa só foi possível graças ao apoio da OEI Portugal, que viabilizou os primeiros pilotos de Escolas Ubuntu na Colômbia e no Brasil, alargando a estes territórios esta dinâmica.





Participei também, neste contexto, no encerramento da 1ª Semana Ubuntu para 20 jovens, entre os 13 e os 20 anos, que estão no sistema de justiça juvenil, a cumprir o seu processo de reintegração social depois de terem cometido delitos vários. Com uma fortíssima componente de justiça restaurativa, o Centro de Formacion Juvenil de Los Pátios é um exemplo muito interessante do que pode ser uma intervenção positiva e restaurativa. Gerido por uma ONG, acolheu de braços abertos a proposta de uma formadora Ubuntu, a Angélica Villamizar, que lhes propôs que desenvolvessem esta ação.


A experiência que pude observar no último dia foi profundamente tocante. A esperança gerada, o compromisso para o futuro, a determinação de servir a comunidade estavam muito evidentes nestes novos líderes Ubuntu. Para o nosso seminário do 5º dia “I have a dream” prepararam cuidadosamente o sonho que queriam partilhar. De tudo o que ouvi, como eixo comum, a referência à mãe e o desejo de a ajudar (“tenho o sonho de construir uma casa para a minha mãe”), ao cuidado dos irmãos e ao desejo de vir a constituir uma família (acrescentando alguns “como nunca tive”). Também o desejo de estudar e de ter uma profissão estava sempre presente. Quiseram fazer-me sentir como a Mrs Gieps, do Páginas da Liberdade, propondo e organizando um almoço de honra, depois da sessão de entrega dos diplomas, proporcionando um tempo de diálogo e de encontro.


Regresso, pois, com a convicção reforçada do tanto que vale a pena partilhar esta metodologia Ubuntu para gerar uma nova ética do cuidado, uma construção de pontes e uma liderança servidora particularmente envolvendo aqueles que a vida colocou do lado errado do caminho.