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  • Writer's pictureRui Marques

Afinal... quem somos?


Esta crise dos refugiados mostrará, sem maquilhagem ou disfarce, quem somos. De que fibra somos feitos. Que valores nos alimentam. Em que acreditamos. Pelo que somos capazes de lutar. Ou, também, que cobardias nos habitam. Que desculpas inventamos. De que medos somos reféns. Levo comigo, deste 2015 que termina, a exigência de um “amor sem asteriscos”. Que nos faça encontrar no rosto de cada refugiado, a face de um irmão.


A propósito dos refugiados que vão procurando um destino seguro entre nós, fugindo da guerra e da destruição, da perseguição e da morte, ouvimos perguntar muitas vezes: “quem são?”, buscando aí um critério para a acção.


Segue-se, frequentemente, o enunciado que são “muito diferentes”, “têm uma religião diferente”, vêm de outra cultura”, “não se querem integrar” e um conjunto de outros argumentos que nos servem de justificação para lhes fecharmos a porta. Ficamos indiferentes ao seu sofrimento e à natureza humana que partilhamos, escondendo-nos nas diferenças que (supostamente) temos entre nós.


Mas será mesmo “quem são?” a pergunta certa?


Arrisco colocar outra questão: “E nós?..quem somos nós?“.


Esse é, verdadeiramente, o ponto. Esta crise mostrará, sem maquilhagem ou disfarce, quem somos. De que fibra somos feitos. Que valores nos alimentam. Em que acreditamos. Pelo que somos capazes de lutar. Ou, também, que cobardias nos habitam. Que desculpas inventamos. De que medos somos reféns.


O que fizermos, por estes dias, mostrará quem somos.


Por isso, este tempo exige que nos vejamos ao espelho. Não só fitando os olhos nos nossos olhos, mas também perscrutando mais fundo, entrando mesmo na nossa alma. Quem somos? Perante uma crise profunda de milhares de homens, mulheres e crianças que nos batem à porta e nos pedem abrigo, que resposta damos? Perante quem nada tem, o que estamos dispostos a repartir? Para quem precisa de uma oportunidade para recomeçar, o que estamos dispostos a fazer?


Quereremos encontrar no nosso espelho os traços de alguém que reconhece a sublime dignidade da vida humana, em qualquer contexto, com qualquer cor, língua ou religião.


Quero acreditar que, se pararmos para fazer esta pergunta, algo mudará. Nenhum de nós gostará de ver um monstro no reflexo do seu espelho. Nem um medroso. Nem um cínico. Quereremos encontrar no nosso espelho os traços de alguém que reconhece a sublime dignidade da vida humana, em qualquer contexto, com qualquer cor, língua ou religião. Alguém que está disposto a lutar, com coragem, pela defesa dessas vidas, pois nenhuma pessoa é descartável. Alguém que vendo outro caído à beira da estrada, precisando do seu cuidado, não o ignora, nem passa à frente.


Dessa forma, talvez nos reencontremos com o Amor, enquanto valor fundamental para o nosso tempo sofrido. Como valor absoluto e não como medida relativa. Um Amor que não precisa de justificações, nem de retribuições simétricas. Que não se justifica porque alguém nos é “próximo”: que se justifica, tão-somente, porque alguém precisa de nós e nós não hesitamos em nos fazermos próximos.


Ouvi recentemente a história de um padre ortodoxo grego, que à pergunta “porque ajuda os refugiados?”, respondeu simplesmente: “Porque Deus é Amor, sem asteriscos”. Sem “mas“, ou “contudo“, ou “no entanto” ou os outros asteriscos que vamos colocando para não fazer o que devemos. Levo comigo, deste 2015 que termina, essa exigência desse “amor sem asteriscos”. Que nos faça encontrar no rosto de cada refugiado, a face de um irmão.


Podem consultar o artigo em : https://www.ver.pt/afinal-quem-somos/

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