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  • Writer's pictureRui Marques

Mundo VICA, o que precisamos de recordar

Nas últimas semanas tenho voltado recorrentemente ao modelo do mundo “VICA” (Volatilidade / Incerteza / Complexidade / Ambiguidade). Creio que se tem vindo a confirmar, ano após ano, o acerto da interpretação dos sinais dos tempos, descrito no livro “Leaders. The strategies for taking charge”, de Warren Bennis e Burt Nanus. Mais tarde, nos anos 90, um grupo de estrategas militares norte-americanos disseminou esta chave de interpretação do mundo do nosso tempo.



A escolha destes quatro conceitos chave para nos ajudar a perceber as grandes “placas tectónicas” que se movem todos os dias foi muito ajustada. Mergulhemos, pois, na sua brevíssima abordagem, a que se somam pistas para lidarmos com este tempo.


A primeira palavra é a Volatilidade. Se Bauman nos falava de uma pós-modernidade líquida, hoje estamos já claramente num tempo de realidade gasosa. A mudança constante, uma montanha-russa imprevisível e fronteiras muito fluidas, mostram como tudo se torna mais difícil, no que toca à desejável previsibilidade. Acresce que estes ciclos de mudança se têm encurtado sucessivamente, num ziguezague permanente. Temos defendido que esta condicionante constitui um apelo reforçado à flexibilidade e à adaptabilidade, individual e organizacional, por forma a alcançar uma maior resiliência, entendida como capacidade de adaptação positiva, face a adversidades. Este é um grande desafio para estruturas rígidas e burocráticas, incapazes de ajustarem a tempos voláteis.


A segunda dimensão, que decorre da primeira, é a Incerteza. Torna-se cada vez mais claro que a única certeza que temos é...a incerteza. Não se consegue descortinar o que acontecerá amanhã, o que induz elevados níveis de insegurança. E esta é a antecâmara do medo, que é péssimo conselheiro. Grande parte da turbulência social e política dos últimos anos, tão impactados pela pandemia e pela guerra (ambas imprevisíveis até à sua explosão) decorre deste alinhamento. Para responder a este desafio precisamos de estar capazes de pensar por cenários (e não só o A e o B, mas muito mais), num exercício constante de entendimento das possibilidades, sendo mesmo capazes de esperar o inesperado. Mas, acima de tudo, temos de estar ancorados a valores – nunca foram tão importantes quanto em tempos de tempestade - e as redes de apoio, sejam as nucleares, sejam as secundárias, que nos sustentam e apoiam neste contexto. Também ajudará nesta época a frugalidade, com “bagagens leves”, que nos permitam a flexibilidade e capacidade de adaptação que tanto vamos precisar.


Segue-se neste acrónimo, o C, de Complexidade. Esta decorre do crescente número de interações em sistemas abertos, cujos contornos não conseguimos antecipar e que se caracterizam pela não-linearidade, em que os efeitos podem ser de natureza e dimensão muito diferentes das causas. A complexidade empurra-nos para uma resposta que exige pensamento sistémico e abordagens colaborativas e integradas, que tenham consciência e sejam capazes de agir sobre todo o sistema considerado.


Finalmente, surge a Ambiguidade. Talvez seja a dimensão mais difícil de lidar, sobretudo porque é contraintuitiva. Fomos forma(ta)dos para uma lógica binária, de sim/não, preto/branco,0/1. Seguramente já fomos percebendo ao longo da vida que há um extenso gradiente entre o preto e branco, ou espaços intermédios de talvez. Porém, a ambiguidade obriga-nos a ir mais longe e a chegar à simultaneidade do branco e preto, ou do sim e do não. E isso é de processamento muito difícil. Precisamos por isso de aprender a pensar “E”, num conjuntiva de “sim” e “não” simultâneos, em vez do nosso clássico “ou”. Por outro lado, somos desafiados a uma humildade aprendente, de quem se sabe sempre à procura de, e nunca certos, numa qualquer arrogância infantil, ou cheios de certezas vãs.


Para fazer face a todos estes desafios – VICA – o mais decisivo, porém, é termos claro qual é o nosso sentido e propósito. Quem tem um “porquê”, resolve quase todos os “comos”, dizia Nietzsche. A busca quer do “porquê”, quer do “para quê”, ajudar-nos-á a manter o “norte” e a navegar não importa quais as tempestades que encontremos.


Se quiser saber mais sobre a interpretação do conceito VICA, adaptado à liderança, este site é interessante.

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